domingo, 30 de dezembro de 2007

REFLEXÃO

As cidades, organismos vivos, possuem uma linguagem própria, contêm caracteres específicos, definem espaços originais, albergam gentes das mais variadas providencias e de diferentes formas de pensar e são habitadas por seres que as personalizam.
Neste conjunto diversificado de elementos naturais, as ruas reflectem algo do sentir e da vivência dos habitantes e daqueles que as percorrem diariamente ou de vez em quando. As ruas, quer sejam sujas tortuosas, íngremes, quer sejam planas ou irregulares, especialmente as mais antigas, mostram sempre uma das facetas do retrato da urbe e oferecem uma sequência cronológica. As ruas são, também,as artérias e as veias dum enorme corpo da cidade. Esta, para se conhecer e entender, obriga o interessado a percorrer o seu tecido viário. Desta maneira, é bom distingui-las umas das outras, através de sinais, das formas,dos cheiros, dos negócios, pelos ofícios e pelos eventos que ali aconteceram e acontecem.
Os seus nomes perpetuam homens célebres (Reis, nobres, santos, cientistas, estadistas, artistas, intelectuais, jornalistas, poetas, etc.) registam factos da imaginação popular, marcam uma atitude de graça, assinalam um momento inesquecível, vulgarizam uma alcunha, sublinham valores naturais.
Os nomes das Ruas de Lisboa podem dizer muito sobre a história da cidade, sobre a época em que nasceu a artéria ou sobre aquilo que ao longo dos tempos foi mais importante para quem lá vivia.
Desde a idade Média até ao terramoto de 1755, os nomes não existiam oficialmente. Sabe-se que as pessoas tinham de designar os sítios de alguma forma e,assim, foram surgindo vários nomes usados pelo povo. Só em 1758, durante o reinado de D. José I, são atribuídos nomes por decreto, na Baixa Pombalina, que serviam sobretudo como propaganda ao rei.

Em 1802, por necessidade dos Correios e de forma a melhorar a distribuição da correspondência, a Administração Geral dos Correios mandou, pela primeira vez, pintar os nomes das ruas nas esquinas das vias públicas da capital.
Na época liberal a partir de 1820 os nomes das ruas foram usados como propaganda, atribuindo-lhes nomes políticos. Com a instauração da República em 1910 foi a época em que mais se alterou os nomes das ruas. O Estado Novo devolverá alguns nomes, mas com o 25 de Abril de 1974 são mudadas novamente algumas designações.
Não é fácil ao comum cidadão, habituado que está em toda a sua vida a calcorrear ruas alcatroadas, ter consciência de que naqueles mesmos locais cresceram árvores, e de que houve pomares ou hortas. Ainda que a toponímia, às vezes, nos ajude (se, por exemplo, um sítio se chama "dos Olivais" é porque forçosamente, lá existiu grandes conjuntos de oliveiras), não se imaginam com facilidade campos de trigo em Campo de Ourique, nem hortaliças a despontarem na Avenida da Liberdade. Mas não nos admiremos pois, que dentro da Cidade de Lisboa existissem pastos, hortas, figueiras e ferregiais. Na verdade, O "campo" foi cedendo lugar à "cidade" através das sucessivas urbanizações.
Em cada rua ou recanto, em cada movimento das coisas, permanece um lento e longo processo de constituição, testemunhando um passado de décadas e ou de séculos que nos leva à sua definição actual.

1 comentário:

Maria de Lurdes disse...

PARABÉNS CALICO!!!!

Espectacular partilhares as tuas pesquisas e trabalhos com a comunidade...
Quem sabe se é daqui que partes para a publicação.
Tenho a certeza que os anjos já te estão a ajudar...
Grande abraço apertado e conta comigo
bjs da lu