quarta-feira, 19 de setembro de 2012

PRAÇA DO CHILE [ VII ]

 Praça do Chile - (1939) - Foto de Eduardo Portugal (Retiro da "Perna de Pau" na antiga "Estrada de Sacavém" junto ao apeadeiro do Areeiro. Neste ano já não é visível a inscrição de azulejo na fachada do edifício) in AFML 
 Praça do Chile - (Início do século XX) Foto de Alberto Carlos Lima (O retiro da "Perna de Pau" na antiga "Estrada de Sacavém", junto ao apeadeiro do "Areeiro". A afamada casa da "D. Gertrudes") in AFML  
 Praça do Chile - (1937) (Dois casais aproveitando um almoço domingueiro nas "hortas", nos arredores de Lisboa, não faltando o indispensável "tintinho" in ARQUIVO/APS
 Praça do Chile - (2006) Foto de Carlos Fontes (O retiro "Quebra Bilhas" de portas fechadas no "Campo Grande" in JORNAL DA PRACETA
Praça do Chile - (1959) - Foto de Judah Benoliel (O antigo "Quebra Bilhas" no "Campo Grande") in AFML

(CONTINUAÇÃO) - PRAÇA DO CHILE [ VII ]

«ARRABALDES DE LISBOA, RETIROS E HORTAS (2)»

As pescadinhas de rabo na boca, ornamentadas com raminhos de salsa e bem acompanhadas de salada de alface fresca, enchiam as travessas. E vinham famílias inteiras e grupos de parentes ou amigos, propositadamente para a reunião. Não faltavam fidalgos da melhor estirpe, artistas, toureiros e aficionados, gente generosa, alguns boémios incorrigíveis e folgazões para quem não havia Domingo nem dias Santos.
Verifica-se ainda que os "Retiros" proliferaram sobretudo ao longo de dois percursos; um, o da antiga "ESTRADA DE SACAVÉM", entre o «LARGO DE ARROIOS» e a «PORTELA» o do "Manuel dos Santos" (que desapareceu com a construção do Aeroporto de Lisboa), o outro, o que seguia os touros para as corridas da "Praça do Campo de Santana", desde o "Senhor Roubado", "Calçada de Carriche", "Rua Direita do Lumiar" e "Rua Oriental do Campo Grande".
O Retiro "PERNA DE PAU", situado na "Quinta de Santo António" ou  da "Frejoeira" (perto do apeadeiro do Areeiro), foi esse retiro vendido em 1860, e por a sua nova dona "D.GERTRUDES ROSA SOARES" ter sofrido a amputação de uma perna e a ter substituído por outra de pau,  ficou a casa conhecida por «PERNA DE PAU». Por morte daquela proprietária ocorrida em 1879, veio o retiro a pertencer à "TIA NARCISA", esta por sua vez falecida em 1912, tendo sido sob a direcção de ambas que ele desfrutou do maior prestígio e teve a melhor clientela, entre a qual se contou o grupo dos "Vencidos da Vida" e o pintor "José Malhoa". Depois de ter passado por mais dois ou três proprietários, um mandato judicial determinou o encerramento do "PERNA DE PAU" em 17 de Agosto de 1923.
Consta que um destes retiros, talvez o "PERNA DE PAU", figurava no cenário do 1º acto da «ROSA ENJEITADA», o drama tão popular (na época) e romântico do dramaturgo «D. JOÃO DA CÂMARA» no ano de 1901. No texto começava assim: "Uma horta nas proximidades de Lisboa. À esquerda, a casa e uma mesa. À direita, a parreira e uma mesa. Outra mesa, mais pequena, ao centro. Ao fundo, muro e porta para a rua. À direita, por detrás da parreira, há uma saída para  a horta".
O "QUEBRA BILHAS" do "Campo Grande", segundo averiguámos no Processo nº 5682,  do Arquivo Municipal do Alto da Eira, foi "JOÃO MARTINS" quem em 3 de Agosto de 1891 requereu licença para a construção de um barracão de madeira coberto a chapa de zinco, para guardar alfaias agrícolas (clandestinamente terá substituído por uma construção de pedra e cal), onde desde o início funcionou o  "QUEBRA BILHAS".
A pouco e pouco, porém, prejudicados pela constante evolução da vida citadina, as «HORTAS» e os «RETIROS» foram desaparecendo ou transferidos e aproximando-se em novas modalidades do centro da cidade.
Hoje, no respeito pelo passado, ainda existe (para homenagear a velha tradição), quem adopte os nomes próprios, históricos ou consagrados dos velhos retiros.
Apareceram depois das "Hortas" e dos "Retiros" os "Cafés", conhecidos mais pela população que os frequenta do que pela sua finalidade.
As "Hortas" foram, com efeito, durante largos anos, o regalo das famílias da capital, que naqueles dias (principalmente aos Domingos) debandavam rumo aos arrabaldes para, em ambiente rústico, comerem o seu almoço, fazendo esquecer as agruras da vida e desfrutarem as excelências do ar puro campesino.

RETIROS
Se forem retiros das hortas, trata-se de restaurantes e casas de pasto, com esplanada e áreas de espectáculo, para onde os lisboetas de deslocavam ao fim-de-semana. Para manter a clientela, não se limitavam a servir comidas e bebidas, como os fadistas e cantadores a tornarem-se atracções especialmente concorridas. Se forem apenas "retiros", significa outra designação para casa de fados, na acepção moderna da palavra.

HORTAS
Por este nome se definiam os perímetros rurais da cidade de LISBOA, para onde aos fins-de-semana os citadinos, iam retemperar os pulmões e passar alguns momentos aprazíveis com as famílias e amigos.( 1 )
- ( 1 ) - BIOGRAFIAS

Do Blogue «GASTROSSEXUAL» de Pedro Cruz Gomes, retirámos esta interessante receita:
Sopa à Tia "GERTRUDES" da «PERNA DE PAU»
 - 250 gramas de carne de vaca cortada em pedacinhos; 1dl. de azeite; meio litro de água; 100 gramas de macarrão; sal, pimenta p.b..
Frita-se a carne no azeite. Retira-se o máximo da gordura para uma panela, onde se ferverá o macarrão. A carne será acrescentada quando a massa estiver cozida.
Fácil, despachado, nutritivo. Devia ficar muito bem a fazer cama para um "tintinho".

(CONTINUA) - (PRÓXIMO) -«PRAÇA DO CHILE [ VIII ] -O HOSPITAL DE ARROIOS (1)»

4 comentários:

Roberto Peresio disse...

"Depois de ter passado por mais dois ou três proprietários, um mandato judicial determinou o encerramento do "PERNA DE PAU" em 17 de Agosto de 1923....." cual è a fonte? creio que o local cotinuo a existir atè aos annos 30, nao?

APS disse...

Caro Roberto Peresio
Efectivamente depois da morte de dona "GERTRUDES ROSA SOARES", ocorrido em 1879, o retiro veio a pertencer (como indico) à "TIA NARCISA", que faleceu em 1912. (...)Sendo dono da Quinta "JOSÉ BENTO DE CARVALHO", este arrendou-a a "JOAQUIM MARTINS GRALHA", que por sua vez sublocou a parte onde se situava as salas de refeições e os quiosques do retiro a "AUGUSTO VIEIRA BORGES".(...) O encerramento da "PERNA DE PAU" foi efectuado em 17.08.1923, não sem que à autoridade se tenha deparado resistência. O fim do famoso retiro ficaria, de facto, assinalado por pancadaria (uma despedida "digna" das tradições da casa em que a convivência nem sempre fora pacífica).
Uma das fontes de confirmação é o livro "LISBOA, O FADO E OS FADISTAS" de Eduardo Sucena - Vega - 2ª edição pág. 52 - 2002 - LISBOA, de que faço referência no "post" da Praça da Chile [XV], na parte de Bibliografia.
Cumprimentos
APS

Roberto Peresio disse...

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Ilustracao/1928/N55/N55_item1/P27.html

E' uma revista do 1928

APS disse...

Caro Roberto Peresio
A publicação é de 1928, espero que não ponha em causa que o encerramento da «PERNA DE PAU» foi efectivamente em 1923.

O texto do jornalista "MÁRIO DOMINGUES" é maravilhoso. O pobre "BIFE", cujo espírito simplório e generoso, deixou a «PERNA DE PAU» em finais do século XIX. Quando lá voltou, mais tarde, em vez de tipóias encontra automóveis do início do século XX.
Este e muitos outros episódios se terão passado na «PERNA DE PAU», o "CARLOS PROENÇA" chamado por alcunha o "BIFE" por lá andou também e, possivelmente, com a sua guitarra (que terá ficado no "prego"), um lisboeta que morava na "RUA DO CAPELÃO" e gostava só de fado.
Cumprimentos
APS