sábado, 18 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ VI ]

«AS VARINAS ( 2 )»
 Gente de Lisboa - (Século XIX) Gravador J. NOVAIS  - (VARINAS conversando antes de irem vender o seu pescado)  in  LISBOA DE ALFREDO MESQUITA
 Gentes de Lisboa - (1832-1833) - Litografia; S lit; O.R. - (VAREIRA, mulher de OVAR vendendo peixe em Lisboa) (Colecção "Costumes Portugueses")  in  O POVO DE LISBOA - CML 
 Gente de Lisboa - (Século XIX) - Gravador J. NOVAIS - (VARINAS lavando o seu peixe na RIBEIRA para depois ser vendido)  in  LISBOA DE ALFREDO MESQUITA
 Gentes de Lisboa - ( 1888 ) - Litografia colorida, seg. aguarela de Manuel de Macedo -Litografia de Guedes. - ( O VARINO DE LISBOA, publicado no "ALMANAQUE ILUSTRADO DAS HORAS ROMÂNTICAS", ano de 1881, pp. 68-69. e  "ÁLBUM DE COSTUMES PORTUGUESES")  in  O POVO DE LISBOA
 Gente de Lisboa  - (Desenho de AMARELHE) - (Uma homenagem de AMARELHE às VARINAS DE LISBOA) in  FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES
 Gente de Lisboa - (anterior a 1932- Foto de Joshua Benoliel) - (Uma greve de VARINAS deslocando-se  ao longo  da RUA DE S. PAULO) (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in  AML  
Gente de Lisboa - (1947) - Foto de Judah Benoliel - (Comemorações do VII Centenário da Tomada de LISBOA aos MOUROS - O Cortejo Histórico, VARINAS e PESCADORES passando na "PRAÇA DOM PEDRO IV" (vulgo Rossio) (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in   AML 

(CONTINUAÇÃO) - GENTE DE LISBOA [ VI ]

«AS VARINAS ( 2 )»

AS VARINAS
Elemento de algumas tradições, raramente casava fora do clã, estabelecendo uma espécie de casta. Muito trabalhadoras e um pouco gananciosas, nenhum membro da família ficava inactivo. 
Os homens ocupavam-se da pesca do peixe; as mulheres apregoavam-no e vendiam-o pelos quatro cantos de LISBOA; e os filhos, ainda bem pequenos, enfrentavam já os rigores do Inverno, pés descalços e andrajosos, calcorriando RUAS, subindo e descendo escadas, na venda de jornais. Quando lhes faltava o peixe a VARINA empregava-se em qualquer actividade, substituíndo-se até muitas vezes, às SALOIAS, na vende de leite.
Foi esta peixeira VARINA, mal a manhã se anunciava, deslizando entre brunas, ou sob a chuva, em ranchos, a caminho da RIBEIRA onde iam arrematar o peixe da lota, perna nua, pé descalço, saia arregaçada, cinta esbelta, faixa apertada sob a anca, na cabeça um "chapelinho" de feltro preto sobre lenço garrido, canastra apenas pousada sobre a "sogra" ( 1 ), gestos desembaraçados, que constituiu o mais insistente cartaz folclórico de LISBOA e um dos mais fortes motivos de inspiração de poetas e artistas.

Assim, o VARINO, era o seu companheiro de labuta, era também o seu único admirador correspondido. Quando não saía para pescar, compartilhava com ela a venda do peixe.
O "VARINO" era homem robusto, crestado pelo SOL, em camisa, faixa à cintura, calça arregaçada, descalço, enfrentava as ondas sob o "sete-estrelo" ( 2 ), com o mesmo à vontade com que dedilhava na sua viola, as árias nas serenatas nocturnas que dedicava às suas musas dos bairros "varineiros".

 A "VARINA" quando o frio apertava usava um capuz sem mangas, chamado «VARINO».
Com o tempo foram invadindo novos BAIRROS, acabando por se irem radicalizando, ao mesmo tempo que se foram abrindo a novos hábitos e adoptando trajes incaracterísticos.
Nos dias de hoje propriamente dito, a VARINA , como vendedeira de peixe, desapareceu das RUAS DE LISBOA. Outros processos de comercialização foram aparecendo, o congelamento do produto, a instalação de peixarias, progressivamente foram substituíndo a VARINA, de andar elegante e voz sonora, a que uma indumentária característica, regional, "emprestava" uma personalidade única entre os vendedores ambulantes da cidade de LISBOA.
De todas as vendas ambulantes de LISBOA, foi a do peixe a que deixou mais raízes e deixou mais saudades. Resistiram as VARINAS até mais de metade do século XX. A facilidade de transportes acabou por as dispensar. E hoje seria impossível fazer ouvir um pregão, no meio do ruído dos motores e das buzinas. 
Essas raparigas alegres e expressivas corriam boa parte da cidade gritando por forma a que as suas vozes fossem ouvidas mesmo nos andares altos. 
Criaram assim pregões cantados, com musicalidade próprias para cada tipo de peixe. A SARDINHA por exemplo era " Vivinha da Costa" e as suas qualidades eram elogiadas com o brando "ai que linda, ai que linda"; o carapau era "fresquinho", a pescada era "do alto"; o pargo era "de SESIMBRA".  
Estas jovens VARINAS, trabalhadoras e azougadas, deitavam a mão a tudo que "cheirasse" a ganhar dinheiro, fosse na descarga do carvão ou da areia, no cais das fragatas ou correndo pelas RUAS na venda do peixe. E quando calhava uma festa e bailarico, lá estava ela no rodopiar com as suas saias largas, mostrando suas magnificas pernas moldadas no andar elástico pelas RUAS DE LISBOA, balançando as ancas, que as cintas de lã lhe davam um desenho airoso. É uma pena terem acabado as "VARINAS DE LISBOA".

- ( 1 ) - SOGRA - (Prov.) o mesmo que rodilha - trapo que forma uma roda ou roda de trapo que se põe na cabeça para suster fardos, Canastra e abrandar-lhes a pressão.

- ( 2 ) - "SETE-ESTRELO" - (do Latim pleiade -Gr. pléo, navego), s. f.   cada uma das sete estrelas que formam a constelação chamada  PLÊIADES ou Sete-Estrelo na constelação do Touro, que era favorável à navegação.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«GENTE DE LISBOA [ VII ] OS GALEGOS ( 1 )». 

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