sábado, 25 de julho de 2015

CALÇADA DE DOM GASTÃO [ XI ]

«O PALÁCIO DE DOM GASTÃO OU DAS ILHAS DESERTAS (3)»
 Calçada de Dom Gastão - (2015) Foto gentilmente cedida pelo amigo RICARDO MOREIRA (Imagem do antigo CAIS dos "SENHORES DAS ILHAS DESERTAS" virado para a "RUA DA MANUTENÇÃO" já com algumas alterações que descaracterizam o conjunto. O levantamento de um muro de protecção junto da balaustrada do século XVIII e os anexos com janelas, ocupando grande parte da antiga varanda)  in ARQUIVO/APS
 Calçada de Dom Gastão - ( 1998) Foto de António Sacchetti  (Restos do antigo muro de suporte da varanda sobre o CAIS, com a primitiva balaustrada setecentista)  in  CAMINHO DO ORIENTE
 Calçada de Dom Gastão - ( 2005 ) Foto de APS  (No número 15 da "CALÇADA DE D. GASTÃO" primeiro andar, funcionou "O CENTRO ESCOLAR REPUBLICANO ELIAS GARCIA" de 1908 a 1974)   in  ARQUIVO/APS
 Calçada de Dom Gastão - ( 1998 ) Foto de António Sacchetti  (Abertura no muro de suporte da varanda do PALÁCIO DOS SENHORES DAS ILHAS DESERTAS, aberto sobre o antigo CAIS, hoje "RUA DA MANUTENÇÃO")  in  CAMINHO DO ORIENTE
Calçada de Dom Gastão -  (1968) - Foto de Arnaldo Madureira   (Antigo CAIS do PALÁCIO DE D. GASTÃO" na "RUA DA MANUTENÇÃO", ainda nesta altura se podia ver a sua balaustrada setecentista com vasos sobrepostos)  in   AML 

(CONTINUAÇÃO) - CALÇADA DE DOM GASTÃO  [ XI ]

«O PALÁCIO DE DOM GASTÃO OS DAS ILHAS DESERTAS ( 3 )»

Como informação complementar de interesse histórico, diga-se que o 1.º SENHOR DAS ILHAS DESERTAS, então parte integrante da CAPITANIA DO FUNCHAL, foi "JOÃO GONÇALVES ZARCO DA CÂMARA", o celebrizado povoador da «ILHA DA MADEIRA». Mais tarde, seu neto, "SIMÃO GONÇALVES DA CÂMARA", 3.º CAPITÃO, veio a separar as ILHAS DESERTAS em senhorio autónomo a favor do filho do seu segundo casamento, "LUÍS GONÇALVES DE ATAÍDE", portanto 4.º SENHOR DAS ILHAS DESERTAS, neto pela mãe dos CONDES DE ATOUGUIA. O neto deste, o referido "FRANCISCO GONÇALVES DA CÂMARA", 6.º SENHOR, tentou  suceder   na CAPITANIA DO FUNCHAL como primeiro descendente por varonia da família, ao extinguir-se no século XVII a linha principal, a dos CONDES DA CALHETA, perdendo vários processos para a CASA CASTELO MELHOR, que veio a ser a herdeira. No entanto, e como representantes da linha varonil primogénita da descendência dos capitães do FUNCHAL, os sucessivos senhores desta CASA usaram exclusivamente as armas de CÂMARA em chefe, sem misturas, apesar de todos os outros morgados que na casa caíram.

O CAIS DOS SENHORES DAS ILHAS DESERTAS ( hoje ainda visível na RUA DA MANUTENÇÃO), uma das imagens marcantes da ZONA ORIENTAL DE LISBOA, que o progressivo avanço da margem do RIO TEJO fez desaparecer, marcada pela sucessão de variados cais de acostagem, alguns públicos outros de carácter privado, servindo as diversas casas dispostas ao longo da margem do RIO.
Os restos do CAIS DOS SENHORES DAS ILHAS DESERTAS, é uma das poucas reminiscência dessa  realidade de outrora, cuja lembrança, está bem viva nas referencias que lhe faz o "MARQUÊS DE FRONTEIRA", nas suas memórias.

Da milagrosa Imagem  de "NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DA RESTAURAÇÃO" que se venerava na sua ERMIDA DO GRILO, transcrevemos algumas partes do que foi escrito pelo "FREI AGOSTINHO DE SANTA MARIA", "SANTUÁRIO MARIANO", LISBOA, 1707.
"(...) Depois daquele memorável sábado primeiro de dez do ano de 1640 (...)  saíram vários fidalgos a render as fortalezas que à cidade de LISBOA ficavam vizinhas. Um destes foi "D. GASTÃO COUTINHO", que tinha sido um dos quarenta (...). E este fidalgo tocou ir render a fortaleza de CASCAIS, em que depois de grande trabalho (...) entrou dentro dela a dez do mesmo mês. E tratando de ir dar graças (...) foi à ermida da mesma fortaleza, em cujo altar achou uma imagem de Nª. SENHORA DO ROSÁRIO (...) à qual depois de lhe dar graças pela mercê que Deus lhe tinha feito (...) pediu favor à mesma para a continuação da começada empresa da aclamação (...) prometendo-lhe que se lhe desse bom sucesso nela lhe faria uma casa onde com mais decência fosse venerada. Feito este voto (...) tomou a imagem da Senhora do Altar (...) por prémio da vitória, (deixando em seu lugar outra que para isso mandou fazer logo), e a mandou a sua mulher D. ISABEL FERRAZ, para que a colocasse no oratório da QUINTA DO GRILO, que era de seu cunhado "FRANCISCO GONÇALVES DA CÂMARA" (...). Na referida QUINTA DO GRILO deixou sua mulher, em cujo serviço havia uma moça muito simples, mas muito devota de Nª. Senhora a quem o tempo ocultou o nome, deixando-lhe só o de ANTUNES, com que sempre entre a gente da casa era nomeada. (...) A  ela apareceu a SENHORA por repetidas vezes, e lhe mandou dissesse a "D. GASTÃO COUTINHO" lhe satisfizesse a sua promessa, edificando-lhe a casa que lhe prometera.(...) Na manhã do dia seguinte acharam a imagem sobre a cama da moça, tendo a SENHORA as contas ao pescoço e três voltas em cada braço da mesma moça. Divulgou-se o sucesso pela casa e vizinhança (...). Vieram religiosos (de Xabregas e Beato) e, em procissão levaram a SANTA IMAGEM da Câmara em que a moça dormia para o oratório das casas, (...) e ali repetidas vezes a  viram suar, e fazer muitas maravilhas porque deu vista a cegos, sarou coxos e aleijados e deu saúde a muitos enfermos que vinham em romaria (...) untando-se com azeite de sua lâmpada voltavam livres das enfermidades. (...) Adoeceu a moça ANTUNES gravemente em princípios do ano de 1643 (...) e pouco antes da sua última hora mandou dizer a D. GASTÃO COUTINHO que se não queria edificar (...) a casa que prometera, tornasse a levar a imagem à mesma parte de onde a tirara (...). Quis logo dar princípio e vendo-se perplexo na escolha do sítio (...) se sentiu um tremor de terra e se viram milagrosamente abertas umas covas que mostravam ser os alicerces da nova casa (...) em que hoje se vê a ermida (...) que então era no quintal daquelas mesmas casas e quintal do GRILO. (...). Continuou a obra com tanto fervor e cuidado que a SENHORA se colocou na sua ermida do dia de S. JOÃO BAPTISTA do ano de 1644, levando-a do oratório em processão as mesmas comunidades (...). No ano de 1652 instituíram D. GASTÃO COUTINHO e sua mulher (...) em Morgado (...) e dispuseram em seus testamentos que depois de mortos lhe dessem sepultura à vista desta mesma SENHORA, onde seu sobrinho lhe mandou lavrar dois majestosos túmulos de ricos mármores com elefante epitáfios e armas de sua nobreza. (...)".

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«CALÇADA DE DOM GASTÃO [ XII ] O PALÁCIO DE DOM GASTÃO OU DAS ILHAS DESERTAS (4)».

2 comentários:

Isabel Mateus disse...

Nasci num destes prédios contíguos. Aliás, 2 prédios interligados e mui sui generis. Um deles com um pátio (que eu já conheci cimentado) no 1º andar para onde dava uma "varanda" do Centro Republicano Elias Garcia (onde meu pai fez a 4ª classe) e ainda uma janela do antigo Posto 28. O outro prédio, onde nasci, estrutura interior toda em madeira, um tesouro (escadas,corredores, pontes), já demolido. Tenho ainda uma (talvez duas fotos na varanda do PALÁCIO DOS SENHORES DAS ILHAS DESERTAS. Teria eu, talvez, 2 anos(1961). Pode-se ver, tanto quanto as fotos antigas deixam, um lambrim de azulejos.
Excelente Blog. Agradeço a sua contribuição para as minhas memórias.

APS disse...

Cara Isabel Mateus
Muito agradecido pelo seu comentário a este Blogue.
É sempre com especial satisfação que respondemos a uma conterrânea e vizinha da nossa naturalidade (freguesia do BEATO).
Nem todos se podem orgulhar de ter nascido (não digo em Berço de Ouro) mas em casas fidalgas.
Essas casas, na época, eram distintas e concorridas "AS CASAS ou PALÁCIO de "D. GASTÃO COUTINHO SENHORES DAS ILHAS DESERTAS".
Sei por um amigo (que me forneceu algumas fotos do sítio e residia na Rua da Manutenção Militar), que a parte interior de madeira tinha sido toda demolida, não existindo prova que ali havia um Palácio. Fica aqui o conhecimento verbal.
No episódio número [ XII] a quinta foto que representa o edifício onde estiveram instalados os Serviços Médicos Sociais-POSTO Nº 28 (na década de cinquenta do século passado, fui utente desse Posto) e as antigas instalações do "CENTRO REPUBLICANO ELIAS GARCIA", foi tirada por mim e está nessa foto um amigo que me acompanhou, também ele "Olisipógrafo", tendo frequentado o respectivo Colégio (não sei em que época) e me facilitou a informação sobre o CENTRO, de nome Hélio Nunes Vieira. (Poderá eventualmente ser da altura de seu pai) ele morava em Xabregas na Rua Gualdim Pais.
Para as sua "MEMÓRIAS" espero que ainda possa acrescentar mais desta localidade, outrora de fidalgos e Casas senhoriais, que a cada dia se vai apagando as marcas do passado.

Renovando os meus agradecimentos, despeço-me com amizade, e boa saúde
Agostinho Paiva Sobreira-APS.