quarta-feira, 22 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ VII ]

«OS GALEGOS ( 1 )»
 Gente de Lisboa - (1816) Desenho aguarelado de ALBERTO SOUSA - (Um "GALEGO AGUADEIRO", símbolo de LISBOA na época)  in  "ALFACINHAS" os lisboetas do Passado e do Presente
 Gente de Lisboa - (Século XIX) Gravador J. NOVAIS - (Uma mudança, "a pau e corda" por trabalhadores "GALEGOS", na cidade de LISBOA)  in  LISBOA DE ALFREDO MESQUITA
 Gente de Lisboa - (Século XIX) Desenho sobre papel de RICARDO HOGAN - (Um desenho de "MOÇO DE FRETES" provavelmente de etnia "GALEGA", numa esquina da cidade)  in  O POVO DE LISBOA - CML 
 Gente de Lisboa - (1859) Desenho de FLORA, gravura de NOGUEIRA DA SILVA - (O "GALEGO DE ESQUINA" publicado no Arquivo Pitoresco Volume II, página 248)  in  O POVO DE LISBOA- CML  
 Gente de Lisboa - (1907) Foto de Joshua Benoliel  - ("AGUADEIROS GALEGOS" no Chafariz da Esperança - a maioria dos aguadeiros eram GALEGOS, reconhecidos facilmente pela sua típica indumentária e característico  pregão) (ABRE EM TAMANHO GRANDE) in  AML 
Gente de Lisboa - ( 1907 ) Foto de Joshua Benoliel - ("AGUADEIROS GALEGOS" no "Chafariz de Dentro" no Bairro de ALFAMA )  (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in   AML 

(CONTINUAÇÃO) - GENTE DE LISBOA [ VII ]

«OS GALEGOS ( 1 )»

OS GALEGOS
A extrema pobreza em que os «GALEGOS» viviam obrigavam este povo a emigrar, ainda bastante jovem. Desciam das Montanhas da GALIZA, não trazendo consigo mais do que o fatinho que lhes cobria o corpo.
Percorrendo a pé, ou aproveitando-se de alguma "boleia", metiam-se às estradas que os separavam de LISBOA, para onde convergiam em grande número, à procura de melhores condições de ganhar o seu pão e amealhar um pecúlio, que lhes permitisse voltar à terra que os viu nascer e comprar uma pequena porção de terreno para lhes assegurar a velhice. 


Em LISBOA competiam com os naturais e a comunidade NEGRA em tarefas servis, empregando-se como criados, cozinheiros e moços de recados; monopolizavam, porém, quase completamente, os serviços mais pesados. como o de "MOÇO DE FRETES" e "AGUADEIRO".


Os "AGUADEIROS" encontravam-se em número muito elevado em LISBOA, que se distribuíam pelos chafarizes da cidade e, quando aguardando a sua vez na "fila" para obter água, sentados nos seus barris, que serviam para distribuir a água, carregando-os às costas ou, em grupos, pelas "PRAÇAS" e esquinas das RUAS, à espera de um freguês.
Terão sido estes "GALEGOS" que, mercê da sua força bruta, aliada a um temperamento calmo e algo de ambição, conseguiram assegurar uma eficiente distribuição de água ao domicílio na cidade de LISBOA, pois só em 1880 com a inauguração da "ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DOS BARBADINHOS", na RUA DO ALVIELA à "CALÇADA DOS BARBADINHOS", o abastecimento normal de água para a cidade ficou parcialmente resolvido, por uns largos anos.
Foram estes "GALEGOS" que em certas ocasiões fizeram de bombeiros em LISBOA, enquanto não existiam serviços de incêndio organizados, acorrendo prontamente, a qualquer hora da noite, sempre que os sinos da Igreja dessem esse sinal de incêndio.

Antes da revolução operada nos transportes, foram verdadeiras "bestas de carga", (que nos perdoem o termo), assegurando o transporte de mobiliário nas mudanças de residências.

Com a captação das águas do "RIO ALVIELA" e a fundação da "COMPANHIA DAS ÁGUAS ", por um lado, e a organização das primeira  "EMPRESAS DE TRANSPORTES" por outro, finalizaram as profissões de «AGUADEIROS» e de «MOÇOS DE FRETES». Os "GALEGOS" começaram a rarear nas ruas da cidade de LISBOA até desaparecerem quase por completo nessas actividades.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«GENTE DE LISBOA [ VIII ] OS GALEGOS ( 2 )».  

sábado, 18 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ VI ]

«AS VARINAS ( 2 )»
 Gente de Lisboa - (Século XIX) Gravador J. NOVAIS  - (VARINAS conversando antes de irem vender o seu pescado)  in  LISBOA DE ALFREDO MESQUITA
 Gentes de Lisboa - (1832-1833) - Litografia; S lit; O.R. - (VAREIRA, mulher de OVAR vendendo peixe em Lisboa) (Colecção "Costumes Portugueses")  in  O POVO DE LISBOA - CML 
 Gente de Lisboa - (Século XIX) - Gravador J. NOVAIS - (VARINAS lavando o seu peixe na RIBEIRA para depois ser vendido)  in  LISBOA DE ALFREDO MESQUITA
 Gentes de Lisboa - ( 1888 ) - Litografia colorida, seg. aguarela de Manuel de Macedo -Litografia de Guedes. - ( O VARINO DE LISBOA, publicado no "ALMANAQUE ILUSTRADO DAS HORAS ROMÂNTICAS", ano de 1881, pp. 68-69. e  "ÁLBUM DE COSTUMES PORTUGUESES")  in  O POVO DE LISBOA
 Gente de Lisboa  - (Desenho de AMARELHE) - (Uma homenagem de AMARELHE às VARINAS DE LISBOA) in  FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES
 Gente de Lisboa - (anterior a 1932- Foto de Joshua Benoliel) - (Uma greve de VARINAS deslocando-se  ao longo  da RUA DE S. PAULO) (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in  AML  
Gente de Lisboa - (1947) - Foto de Judah Benoliel - (Comemorações do VII Centenário da Tomada de LISBOA aos MOUROS - O Cortejo Histórico, VARINAS e PESCADORES passando na "PRAÇA DOM PEDRO IV" (vulgo Rossio) (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in   AML 

(CONTINUAÇÃO) - GENTE DE LISBOA [ VI ]

«AS VARINAS ( 2 )»

AS VARINAS
Elemento de algumas tradições, raramente casava fora do clã, estabelecendo uma espécie de casta. Muito trabalhadoras e um pouco gananciosas, nenhum membro da família ficava inactivo. 
Os homens ocupavam-se da pesca do peixe; as mulheres apregoavam-no e vendiam-o pelos quatro cantos de LISBOA; e os filhos, ainda bem pequenos, enfrentavam já os rigores do Inverno, pés descalços e andrajosos, calcorriando RUAS, subindo e descendo escadas, na venda de jornais. Quando lhes faltava o peixe a VARINA empregava-se em qualquer actividade, substituíndo-se até muitas vezes, às SALOIAS, na vende de leite.
Foi esta peixeira VARINA, mal a manhã se anunciava, deslizando entre brunas, ou sob a chuva, em ranchos, a caminho da RIBEIRA onde iam arrematar o peixe da lota, perna nua, pé descalço, saia arregaçada, cinta esbelta, faixa apertada sob a anca, na cabeça um "chapelinho" de feltro preto sobre lenço garrido, canastra apenas pousada sobre a "sogra" ( 1 ), gestos desembaraçados, que constituiu o mais insistente cartaz folclórico de LISBOA e um dos mais fortes motivos de inspiração de poetas e artistas.

Assim, o VARINO, era o seu companheiro de labuta, era também o seu único admirador correspondido. Quando não saía para pescar, compartilhava com ela a venda do peixe.
O "VARINO" era homem robusto, crestado pelo SOL, em camisa, faixa à cintura, calça arregaçada, descalço, enfrentava as ondas sob o "sete-estrelo" ( 2 ), com o mesmo à vontade com que dedilhava na sua viola, as árias nas serenatas nocturnas que dedicava às suas musas dos bairros "varineiros".

 A "VARINA" quando o frio apertava usava um capuz sem mangas, chamado «VARINO».
Com o tempo foram invadindo novos BAIRROS, acabando por se irem radicalizando, ao mesmo tempo que se foram abrindo a novos hábitos e adoptando trajes incaracterísticos.
Nos dias de hoje propriamente dito, a VARINA , como vendedeira de peixe, desapareceu das RUAS DE LISBOA. Outros processos de comercialização foram aparecendo, o congelamento do produto, a instalação de peixarias, progressivamente foram substituíndo a VARINA, de andar elegante e voz sonora, a que uma indumentária característica, regional, "emprestava" uma personalidade única entre os vendedores ambulantes da cidade de LISBOA.
De todas as vendas ambulantes de LISBOA, foi a do peixe a que deixou mais raízes e deixou mais saudades. Resistiram as VARINAS até mais de metade do século XX. A facilidade de transportes acabou por as dispensar. E hoje seria impossível fazer ouvir um pregão, no meio do ruído dos motores e das buzinas. 
Essas raparigas alegres e expressivas corriam boa parte da cidade gritando por forma a que as suas vozes fossem ouvidas mesmo nos andares altos. 
Criaram assim pregões cantados, com musicalidade próprias para cada tipo de peixe. A SARDINHA por exemplo era " Vivinha da Costa" e as suas qualidades eram elogiadas com o brando "ai que linda, ai que linda"; o carapau era "fresquinho", a pescada era "do alto"; o pargo era "de SESIMBRA".  
Estas jovens VARINAS, trabalhadoras e azougadas, deitavam a mão a tudo que "cheirasse" a ganhar dinheiro, fosse na descarga do carvão ou da areia, no cais das fragatas ou correndo pelas RUAS na venda do peixe. E quando calhava uma festa e bailarico, lá estava ela no rodopiar com as suas saias largas, mostrando suas magnificas pernas moldadas no andar elástico pelas RUAS DE LISBOA, balançando as ancas, que as cintas de lã lhe davam um desenho airoso. É uma pena terem acabado as "VARINAS DE LISBOA".

- ( 1 ) - SOGRA - (Prov.) o mesmo que rodilha - trapo que forma uma roda ou roda de trapo que se põe na cabeça para suster fardos, Canastra e abrandar-lhes a pressão.

- ( 2 ) - "SETE-ESTRELO" - (do Latim pleiade -Gr. pléo, navego), s. f.   cada uma das sete estrelas que formam a constelação chamada  PLÊIADES ou Sete-Estrelo na constelação do Touro, que era favorável à navegação.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«GENTE DE LISBOA [ VII ] OS GALEGOS ( 1 )». 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ V ]

«AS VARINAS ( 1 )»
 Gente de Lisboa - (1900) - Aguarela de ALBERTO SOUZA - ( A "VARINA" com seu traje pitoresco e colorido)  in ALFACINHAS OS LISBOETAS DO PASSADO E DO PRESENTE
 Gente de Lisboa - (1920) Desenhado por CALDERON DINIS em Maio de 1983- ( A "VARINA" na sua faina vendendo peixe em LISBOA) in TIPOS E FACTOS DE LISBOA NO MEU TEMPO
 Gente de Lisboa - (1809) Gravura aguarelada I.N.C. de Manuel Godinho - (Saloia de FRIELAS ou FRIELEIRA, vendendo peixe em LISBOA. Na direita em baixo, podemos observar um barco típico do Rio Tejo "O MOLETA"-Colecção RUAS DE LISBOA , Est. Nº. 19)  in  O POVO DE LISBOA - CML
 Gente de Lisboa - (Século XIX) Gravador J. NOVAIS - (VARINAS lavando o peixe, para depois o ir vender)  in  LISBOA DE ALFREDO MESQUITA
 Gente de Lisboa - (1909-09) Foto de Joshua Benoliel - ( VARINAS à porta do MERCADO 24 de JULHO) ( Abre em tamanho grande)  in  AML 
 Gente de Lisboa - (19--) Foto de autor não identificado - (VARINAS lavam e escolhem o peixe no CAIS DA RIBEIRA NOVA)  ( Abre em tamanho grande)  in  AML 
Gente de Lisboa - (19--?) Foto de autor não identificado  - ( "VARINAS" lavando o peixe no Cais da "RIBEIRA NOVA") ( Abre em tamanho grande )   in   AML


(CONTINUAÇÃO) - GENTE DE LISBOA [ V ]

«AS VARINAS ( 1 )»

«AS VARINAS»
Como a "VARINA" era sempre uma pessoa que vendia peixe, houve a tendência para fazer sinónimo dos dois termos; VARINA e PEIXEIRA, o que não é correcto. O termo "VARINA" é um tipo; PEIXEIRA será uma profissão.
Existiram sempre PEIXEIRAS em LISBOA, muito antes das "VARINAS" terem monopolizado o mercado do peixe da CAPITAL onde, aliás, desde sempre, o pescado constituía a alimentação mais popular, base de sustento das classes menos abastadas.
As PEIXEIRAS provinham dos BAIRROS piscatórios de ALFAMA ou de ALCÂNTARA ou de ZONAS RIBEIRINHAS, de FRIELAS, as chamadas PEIXEIRAS-FRIELEIRAS, ou de TOMAR, ou ainda da "OUTRA BANDA",  "MARGEM SUL DO TEJO",  hoje "GRANDE ÁREA METROPOLITANA DE LISBOA", que engloba actualmente 18 Municípios da GRANDE LISBOA e da "PENÍNSULA DE SETÚBAL, sendo sem dúvida alguma o maior centro populacional do país.

Já existiam em zonas mais distantes, especialmente da barra de AVEIRO, mas em número reduzido. Foi depois da inauguração da LINHA DOS CAMINHOS DE FERRO DO NORTE, que a Colónia de "VARINAGEM" toma grande importância em LISBOA.
A "VARINA" viera, como todo o seu grupo étnico, quase sempre de zonas piscatórias como: ILHAVO; TORREIRA; ESTARREJA; FURADOURO; MIRA e, naturalmente de OVAR, donde lhe veio o nome, subtraindo-lhe o "O" para facilidade de dialecto.

Embora o designativo pela qual são conhecidos os "VARINOS" ou "OVARINOS" que naturalmente se circunscrevem à região de OVAR, ou de lá provinham com especial incidência da MURTOSA. Faziam-se transportar de comboio, deslocando-se praticamente com toda a sua família, "MARIDO", "MULHER", "FILHOS" e "IRMÃOS".
De início eram trabalhadores sazonais; vinham fazer aqui uma época, a do chamado "bom tempo", regressando depois às suas terras onde se dedicavam a uma agricultura de subsistência. Acabaram por se ir fixando e ficar o tempo inteiro.  Chegavam em grupos, alugavam uma casa para viverem, e procurando de preferência o popular "BAIRRO DA MADRAGOA", onde viviam sem qualquer conforto, dormindo no chão, sobre uma esteira.
Diz-nos ainda "NORBERTO DE ARAÚJO" nas suas "PEREGRINAÇÕES EM LISBOA" Livro VII página 27, o seguinte: "MADRAGOA, nome ressonante e plebeu; pescadores OVARINOS, homens da estiva, mulheres de ESTARREJA  e subúrbios, donas de trabalho na prancha da descarga do CARVÃO e nas areias da lota, de peitos altos, saias de cinta dobrada nos corpos durazios a contrastar nas cinturinhas ágeis das raparigas da MURTOSA; ( ... ) traficantes de peixe de olhar vivaço; tavernas onde se fala do mar e das fainas ribeirinhas.  Ao cabo, uma colónia AVEIRENSE trespassada à Capital e que se arreigou, no único BAIRRO DE LISBOA que não tem LISBOA por fundo dinástico".

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«GENTE DE LISBOA [ VI ] - AS VARINAS ( 2 )»

sábado, 11 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ IV ]

«OS SALOIOS ( 2 )»
 Gente de Lisboa - (Meados do século XIX) Gravura colorida - (Saloia Lavadeira com seu traje bem pitoresco -Colecção Espagne of Portugal) in  LISBOA REVISTA MUNICIPAL nº. 22 -1987)
Gente de Lisboa - (Século XIX) Gravador J. Novais - ( PADEIRO SALOIOS trazendo o seu pão para LISBOA)  in  LISBOA DE ALFREDO MESQUITA 
 Gente de Lisboa - (1814) Água-tinta colorida de H. L'ÈVEQUE -Rep fotográfica - Camponesa dos arredores de LISBOA, chamada SALOIA, com seu trajes guerridos) in O POVO DE LISBOA - CML

 Gente de Lisboa - (Século XIX) Desenho de autor não identificado - (Uma SALOIA mercadora de frutas e outra vendedora de pão)  in  LISBOA - REVISTA MUNICIPAL  Nº. 22 - 1987
 Gente de Lisboa - (1925) - Desenho de Alberto Sousa - (Comerciantes SALOIOS numa Praça da Cidade de Lisboa)  in  ALFACINHAS
 Gente de Lisboa - ( Século XIX) - Gravador J. NOVAIS - Casal de MOLEIROS dos arredores de LISBOA)  in   LISBOA DE ALFREDO MESQUITA 
Gente de Lisboa - (1913) - Foto de Joshua Benoliel - (SALOIOS no "LARGO DO MUSEU DE ARTILHARIA", próximo da Estação de Santa Apolónia) (Abre em tamanho Grande)  in   AML 


CONTINUAÇÃO) - GENTE DE LISBOA [ IV ]

«OS SALOIOS  ( 2 )»

Assim, as SALOIAS eram ainda a maior parte das lavadeiras de LISBOA. E era entre as saudáveis mulheres SALOIAS que se recrutavam as amas de leite dos filhos dos burgueses da CAPITAL.
Pelas suas qualidades de trabalho e honestidade nos negócios foi sempre uma população conceituada, ainda que, pela sua extrema simplicidade, nem sempre isenta duma certa «esperteza saloia», se tornasse objecto frequente de troça alfacinha.

Constituía um tipo bem caracterizado, entre a restante população que percorria diariamente as RUAS DE LISBOA, pelo seu modo de vida, aspecto saudável, costumes simples e trajos garridos. As SALOIAS, retratadas em numerosas estampas do século XIX, algumas delas coloridas, envergavam saia e blusa, combinando cores contrastantes, geralmente, blusa vermelha e saia azul, por baixo da qual vestiam uma segunda saia de cor berrante. Sobre a blusa, um apertado colete a amparar o amplo seio.
Calçava bota alta de carneira e, na cabeça, trazia um gracioso carapuço de veludo azul escuro ou negro, com virola de pano ou carneira que colocava sobre o lenço garrido. E quase sempre. É quase sempre representado junto do inseparável burrico que montava, sentando-se de lado, empoleirando-se sobre as cangalhas e os alforjes a abarrotarem de pão, hortaliça ou roupa.

As SALOIAS foram, como as VARINAS, as figuras femininas que cruzavam as RUAS DE LISBOA que mais impressionaram os artistas, estas pelo seu garbo e elegância.
Os "SALOIOS", por sua vez, usavam calça curta e estreita, abotoada ao lado e, por baixo, uns calções brancos que desciam cerca de um palmo abaixo delas. Sobre a camisa, uma jaqueta curta e, na cabeça, um carapuço ponte-aguda semelhante ao dos campinos, ou um chapéu largo.

As "SALOIAS" lavadeiras, cuja distância não lhes permitia regressar a casa no mesmo dia às suas aldeias, pernoitavam em estalagens, espécie de "CASA DA MALTA", onde dormiam conjuntamente com os animais que as transportavam.
Eram bem conhecidas algumas destas hospedarias como a "ESTALAGEM DOS CAMILOS", na RUA NOSSA SENHORA DO AMPARO; outras situavam-se no POÇO DOS MOUROS; POIAIS DE S. BENTO, ou nas proximidades do "LARGO DO RATO"


(CONTINUA)-(PRÓXIMA)«GENTE DE LISBOA [ V ] -AS VARINAS ( 1 )» 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ III ]

«OS SALOIOS ( 1 )»
 Gente de Lisboa - (1840) Litografia colorida PALHARES - (Saloia Lavadeira com sua trouxa à cabeça e de saia bastante garrida - Colecção PALHARES)  in  LISBOA - REVISTA MUNICIPAL Nº 22 de 1987.
 Gente de Lisboa - ( 1828 ) - Litografia colorida rep. fotográfica - (Saloios regressando de LISBOA)  in  O POVO DE LISBOA - CML 
 Gentes de Lisboa - (Século  XIX - Gravador J. NOVAIS) - (SALOIO vendedor de leite e queijos)  in  LISBOA de ALFREDO MESQUITA
 Gente de Lisboa - ( Século XIX - Gravador J. Novais) - (PADEIRA e LAVADEIRA SALOIA, a cavalo em direcção a LISBOA)  in  LISBOA DE ALFREDO MESQUITA
 Gente de Lisboa - (1898) Desenho de Alberto Souza - (A LAVADEIRA de CANEÇAS com sua trouxa à cabeça, vestia saia, blusa e lenço na cabeça, calçando meia bota de carneira, sobre a saia um avental e no braço um pequeno saco)  in   ALFACINHAS OS LISBOETAS DO PASSADO E DO PRESENTE.
 Gente de Lisboa - (1907-12) - Foto de Joshua Banoliel - (SALOIOS na "Praça do Comércio" ) (Abre em tamanho grande)  in   AML 
Gente de Lisboa - (antes de 1930)  Desenho de CALDERON DINIS em Fevereiro de 1982) (A SALOIA LAVADEIRA da roupa que vinha na galera da MALVEIRA para LISBOA in  TIPOS E FACTOS DE LISBOA NO MEU TEMPO


(CONTINUAÇÃO) - GENTE DE LISBOA [ III ]

«OS SALOIOS ( 1 )»

«OS SALOIOS»


Entende-se a designação de «SALOIOS» aos habitantes dos arredores de LISBOA numa área que se aproxima com o antigo termo da cidade.

Ainda que a palavra SALOIO e muitos dos costumes e modos de vida desta população, leva-nos a pensar existir uma relação próxima entre ela e a população Mourisca fixada por DOM AFONSO HENRIQUES nos arredores da cidade recém conquistada, o seu perfil físico - são geralmente bem construídos, altos ou de altura média, muitas vezes de tez clara e rosada - indica que não é certamente, esta a sua única , nem sequer, talvez, a sua principal origem.

Além de prováveis influencias nórdicas, é possível que parte da população fixada a que se referem as crónicas antigas, fossem, por sua vez, descendentes da população aqui residente quando da conquista árabe e que, tendo-se assimilado ao invasor, foi por estes tolerada, como se verificou em tantos outros casos.

O «SALOIO» tem sido, desde sempre, essencialmente, camponês. Dedica-se, principalmente, à horticultura que cultiva com esmero em viçosas "almoinhas" ( 1 ), com "Noras" ( 2 ) e seus poços de arquitectura e tradição mediterrânica.
O seu cultivo estendia-se a árvores de fruto, oliveiras e também a vinha.
Era criador de gado, dedicando-se, principalmente, ao tratamento de cabras e vacas leiteiras.

O «SALOIO» que, com o crescimento de LISBOA, vai sendo por ela absorvido, foi no passado, o principal suporte do abastecimento da sua população, fornecendo-lhe toda a espécie de géneros alimentícios que, com a actual  facilidade dos meios de transporte, permitem que venham de outros pontos do país ou mesmo do estrangeiro.

Eram eles que abasteciam os mercados de LISBOA de hortaliças, legumes e frutas; produzia parte do vinho consumido na Capital, tendo ganho muita fama o "Vinho do Termo" ( 3 ) ; fornecia o leite que transportava de casa em casa, em grandes bilhas de folha, muitas vezes mugido na presença das freguesas; com o leite traziam os apreciados queijinhos saloios, fornecidos frescos, todas as manhãs. Boa parte do pão consumido em LISBOA era também amassado na região saloia.

- ( 1 ) - ALMOINHA ou ALMUINHA - (do Árabe almunia), s. f. (ant.) horta, quintal, pequena quinta suburbana.

- ( 2 ) - NORA - Engenho para tirar água dos poços, ribeiras ou rios.

- ( 3 ) - VINHO DO TERMO - Ganhou muita fama, era oriundo de Odivelas e das vinhas dos Olivais.


(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«GENTE DE LISBOA [ IV ] OS SALOIOS ( 2 )». 

sábado, 4 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ II ]

«OS ALFACINHAS ( 2 )»


 Gente de Lisboa - ( 1806) - (Estudo Aguarelado de Alberto Souza - (Mulheres em Capote e "Josézinho" em 1806)  in  ALFACINHAS
 Gente de Lisboa - (1814) (Água-tinta de H. L'ÉVEQUE) - Jovem senhora envolvida em seu capote, publicado em "COSTUME of PORTUGAL" em 1814. (Copiado por Alberto Sousa e inserido no seu livro na pág. 181)  in   ALFACINHAS
 Gente de Lisboa - (181?) Estudo de Alberto Souza - (Um estudo de ALBERTO SOUZA a carvão, de uma mulher com capote e lenço) in  ALFACINHAS
 Gente de Lisboa - (1814)-(Desenho de autor não identificado) - (Vista de LISBOA na época, com casal de alfacinhas vestidos com seus trajes típicos. Publicado em França em 1814, por Madame Dufrenoy em "LE TOUR DU MONDE, ou TABLEAU GÉOGRAFIQUE et HISTORIQUE DE TOUS LES PEUPLES DE LA TERRE, etc. Vol. III)   in   O POVO DE LISBOA
 Gente de Lisboa - (1825) Desenho de Jorge de Bekerster Joubert  - (Um marinheiro despede-de de uma alfacinha de capote e lenço, inserido no livro de Alberto Souza, uma colecção de JOUBERT) in ALFACINHAS - Pág. 76
Gente de Lisboa - (Século XIX) - Gravador J. NOVAIS -  (Apresentação de outro tipo de vestuário em Alfacinhas, mulheres do povo, nessa época)  in  LISBOA de ALFREDO MESQUITA

(CONTINUAÇÃO)-GENTE DE LISBOA [ II ]

«OS ALFACINHAS ( 2 )»

Os escravos eram trazidos de sítios muito diferentes: achocolatados das COSTAS DO MALABAR, crioulos das AMÉRICAS e negros da COSTA DE ÁFRICA, sendo estes de longe os mais numerosos. Apesar de relegados, mesmo quando libertados, para os trabalhos considerados mais reles, estes elementos não encontraram, apesar disso, resistência da parte da população local mais pobre que não só com eles acamaradou nos trabalhos e divertimentos, mas com eles, naturalmente se cruzou. Porém, ainda que seja considerável a influência do sangue negro no tipo físico do alfacinha, esta só não foi mais notória, devido à compensação que, por outro lado, operavam as novas ondas migratórias, vindas de vários pontos do país, "OS OVARINOS" da barra de AVEIRO, os "ALGARVIOS" que monopolizaram a faina-marítima do TEJO e, principalmente , "O SALOIO" que ia sendo integrado com as suas terras à medida que a cidade ia crescendo, além de um grupo indiferenciado, vindo de vários pontos e cada vez mais numerosos.

Com sangue proveniente de várias origens, moldou-se assim o "ALFACINHA", recebendo tendências, taras e costumes que, com o tempo, se tornaram os seus.
Assim, os numerosos estrangeiros que nos visitaram em finais do século XVIII e início do século XIX, apreciaram o seu gosto pela música e pelas danças, as suas boas vozes, o seu trato afável, criticavam, em contrapartida, a sua indolência, a sua conformação fatalista com a miséria que fazia dele, frequentemente, um elemento parasitário, pusilânime (de alma pequena) e vaidoso, pronto a aceitar viver de expedientes ou da caridade pública. Preocupava-se, principalmente, em salvaguardar uma aparência ajanotada, procurando, pelo trajo, imitar as classes privilegiadas da sociedade. Até tarde, quer de Inverno, quer de Verão, não abandona o seu amplo capote de que nunca enfiava as mangas e que atirava, com jeito rufia, negligentemente, sobre o ombro, como se duma capa se tratasse. Este servia-lhe para esconder a pobreza e desalinho do vestuário, os instrumentos de trabalho de que se envergonhava e a arma de que sempre andava munido, geralmente uma grande faca de cujo uso abusava, livrando-se de maçadas, pela facilidade em se disfarçar, embuçando-se no seu largo capote. Como este usava um tricórnio que lhe dava um desejado ar marcial, e que teimou usar quando há muito , fora já abandonado pelos oficiais.
Desprezando os "trabalhos braçais" que relegava para a população adventícia, reserva-se, principalmente, para ocupar os cargos públicos inferiores, sendo, também especialmente dotado para alguns aspectos do artesanato tradicional ( olaria, esteiras, ourivesaria, trabalhos de madeira, etc)

A mulher do povo "ALFACINHA", com seu lenço e seu amplo capote, cultivava, por outro lado, uma aparência de devota recatada. Até muito tarde recusou-se a sair à RUA sem ser acompanhada e sempre envolvida, da cabeça aos pés, num capote de beata ou num "JOSÉZINHO( 1 )  de dimensões mais acanhadas.
Recusava-se também mostrar-se com a cabeça descoberta, envolvendo-a num lenço de (MUSSELINA ou MUSSELINE, do francês "mousseline", oriundo da cidade de "MUSSUL" no "IRAQUE") ou Cambraia branca, atado por baixo do queixo que, parece, sabia ajeitar com muito garridice. Em ilustrações dos finais do século XVIII e início dos XIX, aparece também uma "COIFA DE REDE", atada com um lacinho no alto da cabeça, influência clara da "REDECILHA" espanhola.
Rede idêntica usam também os homens que, sobre ela, enfiam, por vezes, o chapéu.
Apesar desta sua aparência de Beata, e da honestidade do seu traje severo, as "ALFACINHAS" davam um grande número das alcoviteiras,  mulheres de virtudes e "ramalheteira" ( 2 ) de LISBOA, severamente tratadas nas caricaturas de RAFAEL BORDALO PINHEIRO. 
   
- ( 1 ) - JOSÈZINHO - Capote antigo de pouca roda, sem mangas e com cabeção.

- ( 2 ) - RAMALHETEIRA -Mulher que faz ou vende ramalhetes ou ramos de flores.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«GENTE DE LISBOA [ III ]-"OS SALOIOS" ( 1 )».

quarta-feira, 1 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ I ]

«OS ALFACINHAS ( 1 )»
 Gente de Lisboa - (Século XIX) Aguarela de Alberto Souza - (Uma Alfacinha da época dos franceses) in  "ALFACINHAS" os Lisboetas do Passado e do Presente
 Gente de Lisboa - (1814) Água tinta de H.L' Éveque - (Publicado em Costume of Portugal-London-1814) (Mulheres que vão à Igreja - Mulher com a criada e filha. A criada usa um "Josézinho" vermelho sobre os ombros e lenço de cambraia branca sobre a cabeça. a mulher apresenta-se de véu escuro, com saia e corpete de veludo e, luvas de canhão. A criança veste também um conjunto de corpete sobre saia branca e azul. in   O POVO DE LISBOA - C.M.L.
 Gente de Lisboa - (182?) - Desenho de Alberto de Souza - (Mulher de Capote Rodado e lenço, moda durante um período do século XIX)  in  ALFACINHAS os Lisboetas do Passado e do Presente
 Gente de Lisboa - (século XIX) Gravura de J. Novais - ( Um homem e uma mulher do povo naquela época )  in   LISBOA de ALFREDO MESQUITA
 Gente de Lisboa - (Século XIX) Gravura J. Novais - (Alfacinhas nas hortas, debaixo de uma parreira)  in   LISBOA de ALFREDO MESQUITA
Gente de Lisboa - (Século XIX) Gravador J. Novais - (O povo de LISBOA nas hortas em pleno convívio)  in   LISBOA de ALFREDO MESQUITA

- GENTE DE LISBOA [ I ] 

«OS ALFACINHAS ( 1 )»

À cidade de LISBOA chegaram em determinadas épocas , fluentes camadas de pessoas, na procura de melhores facilidades de vida ou melhores condições de trabalho que por aqui era possível encontrar.
Falamos hoje da «GENTE DE LISBOA» em geral, no entanto podemos já discernir, por um lado, o substracto populacional estável dos «ALFACINHAS», e por outro, uma população inconstante, constituindo ou não grupos etnicamente caracterizados, constantemente renovados pela chegada de novos contingentes. (Elementos que aqui vinham eventualmente à procura de compradores para os seus produtos ou oferecer o seu trabalho, regressando às suas terras, outras por cá ficavam, acabando, com o tempo, por se integrar na população local).
A população formada por alguns grupos bem evidenciados como "OS SALOIOS" dos limites de LISBOA, "OS GALEGOS", oriundos da Galiza (ESPANHA) ao Norte de Portugal, "OS VARINOS" da região de AVEIRO, "OS NEGROS" das nossas antigas Colónias e os ALGARVIOS oriundos do Sul de Portugal, etc., que constituía a principal força de trabalho da cidade de LISBOA.
Pelo seu número, importância e permanência entre a população da cidade, tornando-se um complemento indissociável desta, não podendo excluir-se a sua presença, sempre que se pretenda dar a paisagem humana de LISBOA de outrora.
Vamos pois tentar caracterizar cada um dos grupos ou tipos que constituíram, no passado a população de LISBOA.  

OS ALFACINHAS
Produto híbrido, resultante de cruzamentos diversos e de diversas etnias. Ao substracto populacional de raiz "CÉLTICO-IBÉRICA" da região lisbonense, inseriu-se o extracto ROMANO de origem ITÁLICA, enriquecido de elementos de outras proveniências, GREGOS, GAULESES, ou do NORTE DE ÁFRICA. Ainda que pouco significativa há também que ter em conta a inserção do elemento GERMÂNICO, representado na Península pelos ALANOS, SUEVOS, VÂNDALOS e VISIGODOS.
Importante e decisiva foi, porém, a influência operada pela população MOURISCA-BERBERE trazida pelo invasor SARRACENO que permaneceu na região lisbonense, durante cinco séculos e que aqui permaneceu mesmo depois da reconquista, após tratado de paz feito por D. AFONSO HENRIQUES com os  vencidos, permitindo-lhes que estes se fixassem no termo da cidade como trabalhadores rurais.
Esta população, primeiramente marginalizada devido às diferenças de religião, acabou por ser assimilada, tornando-se, assim. além de um factor de influência decisiva nos costumes e mentalidades uma importante componente ética do povo de LISBOA.
E será neste contexto de raízes plurinacionais, que se explica a grande abertura que sempre mostrou o povo de LISBOA em relação para todos os povos que a ele vieram posteriormente acolher, sem atender a preconceitos rácios, de cor  ou de costumes. E, se em outra época marginalizou o elemento JUDEU e o elemento CIGANO esse facto deveu-se, à resistência oferecida por eles.
Aos numerosos elementos de diversas origens europeias que as embarcações que demandavam o TEJO  e aqui iam  depositando, simples aventureiros ou marginais, mas também gente que em LISBOA encontravam melhores condições de trabalho, vieram juntar-se os nativos das terras que os descobrimentos puseram à nossa disposição. Trazidos na condição de escravos, fixaram-se preferencialmente na CAPITAL, onde eram empregados nos trabalhos domésticos, chegando a ser tão numerosos que se considerava constituírem, em finais do século XVIII, cerca de um terço ou um quarto da população de LISBOA, cálculo sem dúvida muito exagerado.

UMA CURIOSIDADE SOBRE O NOME DE LISBOA

A formação do termo LISBOA, perde-se invariavelmente nas trevas da antiguidade. Cada povo que por aqui passou lhe deu uma identificação. Os FENÍCIOS chamaram-lhe "alisubo", o que significa "amena enseada", composta de "ALISUBO" ou "LISUBO", que os ROMANOS trocaram por "OLISIPO", donde os "GODOS" tiraram a sua "OLISIPONA", que os "MOUROS", por falta de "p" no seu idioma, lhe chamaram "OLISIBONA" os "LISSIBONA", e finalmente veio o nome de LISBOA.

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