quarta-feira, 29 de junho de 2016

GENTE DE LISBOA [ IX ]

«OS NEGROS AFRICANOS ( 1 )»
 Gente de Lisboa - (1888) - Estampa colorida aguarelada de Manuel Macedo - (A "NEGRA DO MEXILHÃO" que vendia essencialmente na cidade de LISBOA - Álbum dos Costumes Portugueses)  In  OS NEGROS NA CULTURA POPULAR PORTUGUESA
 Gente de Lisboa - (1888) - Litografia colorida aguarelada de Manuel de Macedo - ( O"PRETO CAIADOR DA CIDADE DE LISBOA" - Colecção de Costumes Portugueses)  in  TRAJES DE PORTUGAL
 Gente de Lisboa - ( 1894 ) - (Rafael Bordalo Pinheiro) - ("O PAI PAULINO" Busto de faiança, pintado e vidrado. Figura muito popular de Lisboa do século XIX. Paulino pertenceu à Brigada da Marinha e fez parte do desembarque no Mindelo. Grande defensor dos direitos dos Negros).  in ALFACINHA
 Gente de Lisboa - (1842) - Litografia assinada por Macphail - ( O Preto caiador da cidade de LISBOA - Colecção de Macphail)  in O POVO DE LISBOA - CML
 Gente de Lisboa - (1835) - Litografia de P.A. - (O Preto Caiador no ROSSIO à espera de fregueses - Colecção de Costumes Portugueses)  in  O POVO DE LISBOA - CML
 Gente de Lisboa - ( Século XIX) - (PRETO CAIADOR e PRETA vendendo TREMOÇOS, na cidade de LISBOA - Colecção PALHARES) - in O POVO DE LISBOA CML
Gente de Lisboa - (Início do século XIX desenho de Félix Doumet ) - (A "A PRETA CALHANDREIRA", transportando à cabeça os despejos da cidade com o "CALHANDRO", indo depois lançar ao Rio) - Colecção DOUMET (179?-1806) in  O POVO DE LISBOA - CML

(CONTINUAÇÃO) - GENTE DE LISBOA [ IX ]

«OS NEGROS AFRICANOS ( 1 )»

Em pleno século XV, chegaram a LISBOA os primeiros cativos, "NEGROS AFRICANOS", com as primeiras descobertas na "COSTA DE ÁFRICA".
Desde então, não mais as embarcações portuguesas deixaram de lançar nas praias lusitanas escravos, "fulos" ( 1 ) ou povo da GUINÉ, ou cor de "azeviche", cuja mão-de-obra, desde o Século XVI, passou a ser reclamada e apetecida para assegurar os trabalhos domésticos e os trabalhos considerados mais despreziveis.

Já era considerada a componente negra na população de LISBOA, nos séculos XVII e XVIII, contando-se então, com uma boa percentagem de mulatos.

Em finais do século XVIII eram bastantes numerosos na Capital. Apesar da facilidade com que se fizeram cruzamentos sanguíneos, os pretos mantiveram-se socialmente marginalizados, numa situação económica sempre subalterna.
Mesmo quando libertos, só lhes era consentido entregar-se a trabalhos mal remunerados, geralmente preteridos pelos demais trabalhadores.
Por isso, na maior parte dos casos, (nessa época) a sua libertação equivalia à miséria. Devido às circunstâncias em que eram obrigados a sobreviver, não admira pois, que constituíssem um dos grupos populacionais que em maior número de mendigos, ladrões, vadios  e rufiões da cidade de LISBOA.

De entre as poucas opções que lhes eram deixadas, a mais apetecida era o ofício de CAIADOR que quase se monopolizou em LISBOA. Constituíam-se,  para tal. numa espécie de corporação, com assento no LARGO DO ROSSIO,  onde os fregueses os iam contratar.

As PRETAS, quando libertadas dos trabalhos domésticos que faziam na  condição de "escravas", empregavam-se como "CALHANDREIRAS" (CALHANDRO) ( 2 ), transportando à cabeça os despejos de toda a cidade que depois o iam lançar ao RIO TEJO;  outras ocupavam-se na venda de produtos pouco rendosos como os tremoços, a fava-rica ou bolos de ALCAMONIA ( 3 ). Eram especialistas na preparação do mexilhão que cozinhavam, bem apimentado, em caldeirões que, depois, transportavam à cabeça pela cidade, entoando o seu bem conhecido pregão: "IERRE, IERRE MEXILHÃO!".

Existiu em LISBOA do século XIX um espertíssimo Negro de quem se contam graciosas histórias. Figura muito popular o chamado  «O PAI PAULINO». Nasceu em 1779 no BRASIL e veio para PORTUGAL com as tropas liberais que desembarcaram no MINDELO. Depois de reformado da Brigada da Marinha fez parte do grupo de pretos caiadores com praça no ROSSIO. Morreu com mais de 90 anos, não tendo nunca abandonado a sua fita de "MINDELEIRO" que usava com orgulho na lapela do casaco. Arvorou-se em defensor dos seus irmãos de Raça. "RAFAEL BORDALO PINHEIRO" esculpiu-lhe um busto de faiança, pintada e vidrado, que se encontra no "MUSEU RAFAEL BORDALO PINHEIRO" situado no Campo Grande, 382 LISBOA.

- ( 1 ) - "FULOS" - Relativo aos Negros fulas; diz-se dos negros ou mestiços cuja a pele é meio amarelada.
- ( 2 ) - "CALHANDRO" - Vaso cilíndrico alto para urinar ou defecar; bacio em forma de cilindro.
- ( 3 ) - "ALCAMONIA" - Bolo, feito geralmente de mandioca, melaço, gengibre, cominhos etc..

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«GENTE DE LISBOA [ X ] - OS NEGROS AFRICANOS ( 2 )»

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