quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

RUA DAS CHAGAS

Rua das Chagas - (vendo-se à esquerda, depois do carro o Palacete das Chagas ou Palácio Viana - Foto de Eduardo Portugal no ano de 1950 in Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa
Rua das Chagas - (ao fundo a Igreja das Chagas de Cristo) Foto de Eduardo Portugal [s.d.] in Arquivo Fotográfico da CML

Rua das Chagas - Igreja das Chagas de Cristo- foto Mário Novais (1949) in Arquivo Fotográfico da CML


Rua das Chagas, 7-15 - Instituto Comercial de Lisboa - foto de Fernando de Jesus Matias ano 1959 in AFCML

A Rua das Chagas, começa na Travessa do Cabral e Rua do Ataíde e termina no Largo do Calhariz. É servida por duas freguesias: a de SÃO PAULO com todos os números ímpares sendo os pares do 2 a 8, a da ENCARNAÇÃO do número 10 em diante.


Situada numa zona típica de Lisboa, começa na chamada encosta das Chagas. Como ponto de referencia tem a Igreja das Chagas, fundada no ano de 1542 por pilotos e mestres da carreira das Índias.
Segundo a lenda (ao que parece, sem fundamento) terá sido nesta Igreja numa sexta-feira de cinzas de 1542, que Camões viu pela primeira vez Natércia, dama da Corte por quem se enamorou.

Tinha esta Igreja uma torre alta no flanco e um aspecto imponente. O terramoto de 1755 destruiu-a por completo, sendo depois reedificada como hoje se apresenta, mais pobre, mas alegre.
Outrora, o adro desta Igreja foi um esplêndido miradouro de Lisboa, estando actualmente cercado de edifícios. Antigamente este adro das Chagas era tão frequentado como é hoje o Jardim (miradouro) da vizinha Santa Catarina mas um prédio, embora não muito alto, roubou o maior encanto ao sítio.

Diz-nos Júlio Castilho na sua obra "Lisboa Antiga (Bairro Alto) Volume II, página 237: «Em 1898, se não me engano, consentiu a Câmara, por motivos decerto muito transcendentes, mas que ficam desconhecidos, um roubo artístico a um dos mais belos miradouros de Lisboa: permitir a elevação de um grande prédio do Pátio do Pimenta, por forma que interceptou a vista por sueste.
Não creio que andasse bem, nem o proprietário pedindo a licença, nem a Câmara concedendo-a. Ao interesse financeiro de um influente político o senhor Conselheiro José Dias Ferreira, submeteram-se considerações de ordem mais nobre: os direitos do Belo». A vereação que concedeu a licença praticou o sacrilégio, lá diz o autor de " Lisboa Antiga" «Enfim se o público perdeu uma parte do espectáculo o inquilino do dito proprietário ganhou-o».

A Rua das Chagas vem desde a Igreja reconstruída após o terramoto, com caracteristícas diferentes das anteriores, até ao Largo do Calhariz ficando-lhe fronteiro o Palácio do Calhariz (hoje C.G.D.).
Prédios altos ladeiam aquela artéria, outrora sossegado retiro, com seus declives que vão dar à Bica. Numa das suas esquinas existe um Palácio com alguma história, ali residiu o notável artista (na época), que foi o Marquês da Foz cujo Palácio dos Restauradores bem demonstram o seu gosto e valor. Era descendente da família do general liberal Gil Guedes que foi companheiro de D. Pedro. Seu filho, o Conde da Foz, falecido em 1944, nunca renegou as ideias dos antepassados e era uma personalidade por todos os títulos, digna de apreço.

Desde 1918 que funcionam no (Palácio Viana ou Palacete das Chagas) as aulas do Instituto Comercial de Lisboa, que anteriormente faziam parte do Instituto Industrial e Comercial no Conde Barão. A secção Industrial foi transferida para a Rua de Buenos Aires.(1)

Também na Rua das Chagas, no número 16, rés-do-chão, residiu Dona Carlota de Serpa Pinto, ilustre escritora que sob o pseudónimo de «Clarinha» publicou verdadeiras obras-primas epistolares. Filha do pioneiro de África, Visconde de Serpa Pinto, cujo nome ficou universalmente conhecido depois da travessia do continente africano.
Na mesma Rua do prédio que tem o número 35, esteve instalado durante vários anos o Clube dos Cem à Hora. Também no número 9 existiu a "Photografia Fillon" de Henrique Nunes, fotógrafo de suas Majestades e Altezas. Nasceu em 1820 e faleceu em 1895. Foi editor da série «Monumentos Nacionais»(1868).(2)

Foi na Rua das Chagas no número 20 rés-do-chão e primeiro andar esquerdo, esquina para a Rua da Horta Seca, que esteve instalado durante largos anos (até à sua transferência para a Rua Castilho, nos anos 70 do século passado) o MOBIL CLUBE, S.C.R.L.. Clube ligado à Mobil Oil Portuguesa, S.A.R.L. que além de um bom refeitório, cantina, bar, sala de leitura e de jogos, prestava todo o apoio aos empregados da "família" MOBIL, tanto na parte de lazer como económico e financeiro.

(1) - Lisboa de Ontem e de Hoje - Rocha Martins - ENP 1945 páginas 82 e 83
(2) - Lisboa Desaparecida Nº 7 - Marina Tavares Dias página 53




6 comentários:

Cláudia Mealha disse...

Bom dia. Sabe mais ou menos em que data é que foram erigidos os prédios da Rua das Chagas, nomeadamente o nº 20? Obrigada Cláudia Mealha

APS disse...

Cara Cláudia Mealha
Por acaso o Nº 20 da Rua das Chagas, era precisamente até aos anos 70 do século XX a sede do MOBIL CLUB o r/c e 1º andar, propriedade da Mobil Oil Portuguesa. Já falei com uma pessoa que lá trabalhou durante vários anos, mas não me sabe informar qual a data exacta do edifício.
Sugiro que faça um pedido à CML nesse sentido, pois eles têm o registo de todos os prédios da cidade, poderá, com um pouco de sorte (ou um conhecimento na CML) ver resolvido o seu problema.
No entanto penso que os edifícios sejam de meados do século XVIII inícios do século XIX.
Despeço-me com amizade
APS

clarinda disse...

Bom dia.

Estou a fazer um trabalho sobre um ilustre morador dessa parte de Lisboa, antes do Terramoto de 755, António Álvares da Cunha. Morava na Rua Direita às Chagas, no Palácio dos Cunhas. Será que pode dizer alguma coisa sobre essa rua e , quem sabe, o palácio. Muito obrigada. Clarinda Santos

APS disse...

Cara Clarinda Santos
Encontrei algumas referências, não sei se lhe poderão ser úteis.
Foi 1º Conde de Cunha: D. Antº Álvares da Cunha n(?) F.9-7-1791, filho de D. Pedro Álvares da Cunha oficial-mor da Casa Real, senhor de Tábua, Cunha e Ouguela.
Sabe-se que foi Governador de ANGOLA, preparou o "MAPA COR-DE-ROSA".
Em 1754 envia para LISBOA amostras de ouro e cristais das minas de «LAMBIGE».
No ano de 1758 ocupava-se activamente no abastecimento de água à cidade de LUANDA.
Em 1759 foi nomeado ministro em Portugal.
Em 1763 foi nomeado Vice-Rei do BRASIL, sendo o primeiro que fixou no RIO DE JANEIRO a sede do Governo, segundo as instruções de POMBAL.
Teve particular atenção às fortificações no BRASIL.
Em 21.11.1767 regressa ao reino e é nomeado Conselheiro de Guerra e de Presidente do Tribunal Ultramarino.(Isto podemos ler no livro:NOBREZA DE PORTUGAL E DO BRASIL-EDITORIAL ENCICLOPÉDICA, LD. LISBOA-RIO DE JANEIRO- VOLUME II - PÁGINAS 549 E 550.
Diz-nos ainda "ROCHA MARTINS" no seu livro "LISBOA DE ONTEM E DE HOJE" 1945- ENP - LISBOA pag.77 a 83.
"Na RUA DAS CHAGAS construíram-se muitos prédios altos de cujos andares se disfruta de magnificas vistas e até se edificaram palácios, como o dos CONDES DE CUNHA.
Naquela casa esteve escondido, em Julho de 1778, o grande poeta FILINTO ELÍSIO, Tesoureiro da Igreja das Chagas e que a Inquisição perseguia (1).
Talvez que D. JOSÉ MARIA VASQUES ÁLVARES DA CUNHA, quarto CONDE DA CUNHA, tivesse habitado o palácio.
(1)-Fugiu, com AVELAR BROTERO, a bordo do navio sueco NICOLAU ROQUE e morreu no exílio.
Existe mais referências, mas trata-se do 4º Conde e não do 1º.
Despeço-me com amizade.
APS

clarinda disse...

Muito obrigada, APS. As suas informações são preciosas. Este D. António de que fala seria neto do quem procuro, 17º senhor de Tábua, e sobrinho de D. Luis da Cunha. A rua Direita, poderá ser, então, a actual Rua das Chagas, onde se encontra o palácio dos Condes da Cunha, que (penso) faz esquina com a rua do Século.

Obrigada, mais uma vez.

Teresa Burnay disse...

Boa noite, Se tiver alguma informação, tenho imenso intresse em saber de que época e quem terá construido a muralha do Pátio Pimenta e os seus contrrafortes, que sustenta toda a encosta das Chagas e que faz frente com as trazeiras dos edificios sitos na Rua de S. Paulo.
Muito obrigada
Teresa Maria