sexta-feira, 21 de março de 2008

RUA DOS FANQUEIROS [ I ]

Rua dos Fanqueiros, 113 - 117 - (1968) Foto Armando Serôdio (Esquina com a Rua de São Nicolau) in AFML Rua dos Fanqueiros - (1963) Foto Armando Serôdio in AFML
Rua dos Fanqueiros - (1947) Foto Eduardo Portugal in AFML

Rua dos Fanqueiros, 40 - (19--) Foto Joshua Benoliel (Drogaria e Perfumaria Dias) in AFML
Rua dos Fanqueiros - (Início do século XX) Foto Alberto Carlos Lima (Estabelecimento Comercial A Confiança de Lisboa) in Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa




A RUA DOS FANQUEIROS pertence a duas freguesias. À freguesia da MADALENA os números 1a 7 e 2 a 76, à freguesia de SÃO NICOLAU o número 73 e do 78 em diante. Começa na Rua de Alfandega no número 148 e termina na Praça da Figueira no número 14.



A RUA DOS FANQUEIROS começou por se chamar, depois de aberta no período pós-terramoto, de RUA NOVA DA PRINCESA (decreto de 5 de Novembro de 1761).
Nela se fixaram desde então (e por força da mesma disposição legal) os mercadores de fancaria, lençaria e alguns de quinquilharia. Certamente por isso, o povo começou a chamar àquela artéria de Rua Nova dos Fanqueiros - e a designação acabou por se fixar oficialmente, depois de proclamada a República.
Rua Pombalina sem dúvida, é aquela que tem mantido praticamente incólumes as suas tradições e defendido inclusivamente o nome que lhe foi dado. Não tem, a majestade da Rua Augusta, a largueza de vistas e o movimento bancário da Rua do Ouro, a variedade comercial da Rua da Prata. Continua, porém, cheia de pitoresco, dedicada quase no seu todo ao negócio da venda de tecidos e produtos com estes relacionados, afinal à «fancaria» no sentido real do termo. É ainda a mais pombalina das ruas principais da Baixa, tal como foi pensada pelo Engenheiro Eugénio dos Santos. Basta ver como se conserva ainda alguns átrios de escadas, alguns arcos de volta inteira nos interiores, alguns registos de azulejos, até mesmo os locais mais ou menos disfarçados, de antigos poços.


Mas nem só de vendas foram causa de notabilidade desta via. Dois edifícios religiosos lhe estão ligados, embora nos dias de hoje, de um deles não restam vestígios e outro esteja desde há muito remetido a funções laicas. Na verdade, no sítio onde vemos as escadinhas do final da Rua de Santa Justa (ligando a rua dos Fanqueiros à da Madalena) e apanhando boa parte do grande prédio onde estão agora os Armazéns «POLLUX», existiu a primitiva Igreja de Santa Justa, uma das paróquias mais antigas de Lisboa, anterior a 1166. Reconstruída e arranjada, foi resistindo ao tempo e aguentou até razoavelmente o terramoto. Não resistiu, porém, ao incêndio que se seguiu ao sismo. Andou então o culto pela capela dos Camilos, no vizinho Poço Borratem, e por uma barraca provisória, até se conseguir novo templo, acabando afinal, em 1834, por passar para a Igreja de São Domingos.
Veremos depois o destino que foi dado ao local.
(CONTINUA)


quinta-feira, 20 de março de 2008

RUA DOS CONDES [ V ]

Rua dos Condes - (2004) Foto JF São José (Cinema Odeon) in carmoetrindade.blogspot.com
Rua dos Condes - (2004) Fotógrafo não identificado (Cinema Odeon)
Rua dos Condes - (1990 - 1991) Foto Michell Waldmann (Cinema Odeon) in AFML
Rua dos Condes - (c. 1960) Foto Arnaldo Madureira (Cinema Odeon) in Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa


O CINEMA ODÉON que se situa na Rua dos Condes do número 2 a 20, eixo nobre da cidade junto à Avenida da Liberdade, em frente do lisboeta cinema Olympia, foi fruto de um projecto de 1923, pelo construtor Guilherme A. Soares.



Em 21 de Setembro de 1927 era inaugurada esta sala de cinema com a exibição cinematográfica de «A VIUVA ALEGRE» de Erich von Stroheim e durante largos anos, estabeleceu laços fortes com a sala do «TRIANON PALACE», sua contemporânea de 1930, partilhando ambos a mesma cópia do filme.
No ano de 1931 é modernizado com expressivas galerias metálicas, na fachada que dá para a Rua dos Condes, com os seus rendilhados de vidros coloridos, que quase apagam o desenho ao estilo clássico do edifício. Estilo esse que é ainda visível no piso superior e, principalmente, na esquina com a Rua das Portas de Santo Antão.
Destacamos ainda, o janelão que ocupa dois andares, sobre o balcão semicircular, assente em métopas que enquadram o nome ODEON. O interior é notável pela sua grande cobertura em pau Brasil com a forma de quilha de navio, pelo seu palco de frontão "Art Deco", pelos sumptuosos e volumosos camarotes e pelo lustre central decorado com néon, e um pé direito invulgar são mais do que suficientes para a não aceitação da degradação desta casa, que aumenta dia a dia.


Deste cinema, recordo com alguma nostalgia os momentos que passei a assistir na década de 60 do século passado, (às quartas feiras) a bons espectáculos de variedades que se realizavam nas segundas matinées (18,30), onde actuavam artistas nacionais e estrangeiros. Os cenários eram amovíveis.
Recordo também de muitas vezes sair pela parte lateral deste cinema, que dá para Rua das Portas de Santo Antão com ligação pelo «Pátio do Trono» (de que já falei).



O cinema Odeon propriedade particular, teve o seu «período dourado» nos anos 40 e 50 do século XX, aguarda há muito tempo por um projecto de reanimação.
Notíciava o "Público" do dia 8 de Outubro de 2003 «que o Odeon fechado há seis anos, foi posto à venda pelos seus proprietários, por um preço que rendava os 2,3 milhões de Euros. Bem assim como leiloar virtualmente (697) cadeiras do cinema».
Recuperar o Odeon para possíveis exibições de cinema, encenação de peças de teatro ou récitas e seminários, era um projecto de um grupo de amigos, que passados estes anos todos ainda não viram grandes progressos.
O objectivo é "lutar para que o ODEON não morra como o ÉDEN ou o MONUMENTAL, nem entre em coma como o PARIS, nem sequer seja reciclado como o CONDES, ficando só a memória priveligiada das antigas gerações", afirmam os promotores da ideia.
Já no ano de 2004 era noticiado novamente sobre «o antigo cinema, que fechou há já vários anos, foi posto à venda em 2000 pela Sociedade Parisiana que é detentora do imóvel, mas desde então nenhuma entidade se mostrou com capacidade para o adquirir e recuperar o edifício, um exemplar da "art deco" construído no início do século XX».
Vários projectos foram apresentados a anteriores edilidades, desde a transformação do cinema num Hotel, até à criação de um pólo associado ao Teatro Politeama de Filipe Lá Féria. Mas nenhuma destas ideias mostrou ter pernas para andar.
A Câmara Municipal de Lisboa dizia preferir que ali se mantivesse uma atividade cultural, mas nem o projecto de Lá Féria, nem o do movimento "Novo Odeon" dispensavam que fosse a autarquia - ou alguma outra instituição com capacidade financeira -, a comprar o antigo cinema, uma hipótese que o município não coloca presentemente.


Este cinema actualmente encerrado, fez recentemente 80 anos, e para assinalar a data a Cinemateca Portuguesa exibiu o filme «A VIUVA ALEGRE», projectado na inauguração da sala, a 21 de Setembro de 1927. O filme mudo, de STROHEIM, foi exibido com acompanhamento ao piano, numa iniciativa da Cinemateca em colaboração com o Fórum Cidadania Lisboa, que, numa nota à Imprensa, lamenta a situação do cinema, encerrado desde os anos 90.

quarta-feira, 19 de março de 2008

RUA DOS CONDES [ IV ]

Rua dos Condes - (Início do século XX) Foto Joshua Benoliel (Cinema Olympia) in AFML
Rua dos Condes - (1966) Foto Garcia Nunes (Entrada do Cinema Olympia) in AFML

Rua dos Condes - (1960) Foto Arnaldo Madureira (Cinema Olympia) in AFML

Rua do Condes - (19---) Fotógrafo não identificado (Estêvão Amarante 1894-1951) in www.macua.org.

Rua dos Condes - (Início do século XX) Foto Alberto Costa Lima in Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa


(CONTINUAÇÃO)
O CINEMA OLYMPIA
O Olympia abriu as suas portas em 22 de Abril de 1911, pouco mais de seis meses depois de implantada a República. Tratava-se de uma sala elegante, destinada a acolher sobretudo a burguesia que procurava a zona dos Restauradores e Avenida para suas distracções. E o certo é que "pegou".
Segundo os preciosos apontamentos de Félix Ribeiro, o fundador da Cinemateca Nacional, é fácil seguir o percurso do Olympia nos primeiros tempos.
Sabino Correia acabou por deixar o seu "Terrasse" e dedicou-se em exclusivo à nova casa. Por sua acção e da equipa que coordenou a casa da Rua dos Condes teve actuação preponderante na Lisboa de há quase 97 anos.
De facto, sobretudo a partir de 1916, as iniciativas eram muitas.
Uma delas teve por alvo o público infantil: a empresa tomou a inédita decisão de criar «Matinées» destinadas aos espectadores mais pequenos, constantes da projecção de filmes adequados e de música.
Depois, a empresa resolveu captar os espectadores mais velhos, segurando-os através de sorteios: o bilhete servia como senha e era atribuído mensalmente um prémio valioso.
Anote-se, como curiosidade, que o prémio do mês de Junho de 1917 foi nada menos do que um BURRO, autentico e vivo.
Saliente-se que o jerico andou pelas ruas da cidade, ostentando publicidade a si próprio por forma a cativar o seu futuro dono.


Mas a iniciativa não morria no Olympia, outra era com caráter essencialmente cultural: as «Matinées» de arte, durante as quais eram exibidos filmes e depois surgiam no palco actores de teatro ou pessoas conhecidas do mundo da cultura, que declamavam, faziam palestras ou conversavam com o público.
Lá passaram nomes como ÂNGELA PINTO, ERICO BRAGA, ESTEVÃO AMARANTE, JOAQUIM COSTA e outros.
António Ferro, jornalista e escritor - que viria mais tarde a ser o homem forte da cultura do Estado Novo, com obra deixada no Cinema, no Teatro, no Bailado e no turismo... - teve, em 1917, a ideia de fazer umas palestras que ficaram célebres: falou de três artistas, três "estrelas" do cinema internacional.
A par de tudo isto, tinha fama o sexteto musical que acompanhava os filmes, obviamente os mudos. Os músicos exibiam-se também durante os intervalos, com verdadeiros concertos.
O Olympia foi perdendo a sua áurea de sala elegante e ganhando características de cinema popular. Nessa fase o conhecemos, como sessões continuas a partir do principio da tarde até à meia-noite. A programação era dominada pelos filmes de aventuras (cow-boys, um ou outro policial, ficção e capa e espada...), acompanhado quase sempre por uma comédia. Ou seja: temas destinados à rapaziada, de escassos recursos económicos mas vida transbordante, que tinham assim direito a dois filmes pelo preço de uma sessão. Não havia lugares marcados e, ao intervalo bastava atar o lenço nas costas da cadeira para ter a garantia de que o assento seria respeitado.
Passou essa fase e o Olympia nos últimos vinte e tal anos, caiu na pornografia, frequentado apenas por um público especial e já longe da "rapaziada brava que avisava o rapaz do ecran de que o bandido estava atrás da porta".
No meio deste panorama pouco animador, surgiu a notícia de que um homem de teatro de nome Filipe Lá Féria decidiu comprar o velho Cinema Olympia, recuperá-lo, e juntá-lo ao vizinho Politeama, para lhe dar uma nova vida.

Como aqui já foi lembrado, em tempos o eixo (RUA DAS PORTAS DE SANTO ANTÃO- RUA DOS CONDES), tem condições para ser zona privilegiada da cultura e de lazer: casas de espectáculo, restaurantes, cervejarias, casas com história, segurança dada pela luz, pelo movimento e pela beleza da sua localização distinta, são atributos bastantes para este lugar da cidade de Lisboa.
(CONTINUA - No próximo famos falar do Cinema ODÉON)



terça-feira, 18 de março de 2008

RUA DOS CONDES [ III ]

Rua dos Condes - (2003) Foto de Dias dos Reis (Cinema Condes à noite) in www.pbase.com
Rua dos Condes - (195--) Fotógrafo não identificado (Cinema Condes no seu apogeu) in AFML
Rua dos Condes - (195--) Fotógrafo não identificado (Ao fundo o Palácio Foz ou de Castelo Melhor) in AFML

Rua dos Condes - (Inicio do Século XX) Foto Alberto Carlos Lima (Antiga Drogaria Ferreira) in AFML

Rua dos Condes - (Início do século XX) Foto Alberto Carlos Lima (Antiga Drogaria Ferreira) in AFML

(CONTINUAÇÃO)
O SÉCULO XX DO CINEMA CONDES
Durante mais de vinte anos, tudo correu normalmente. Mas a crise económica do País, agravada pela I Guerra Mundial, fez descer as receitas dos teatros e este ressentiu-se tanto que se viu obrigado, no princípio de 1915, a fechar as suas portas.
Em meados do século XX surgiu mais uma nova construção, ainda dedicada a cinema - é a que chegou até nós. Mas a rua ganhou aspectos de rainha do espectáculo e do lazer no início da década do século XX. De facto, na estreita via dos Condes nasceu o «Olympia» em 1911 e o «Odéon» em 1927.
Junto do primeiro, apareceu a certa altura uma elegante casa «Olympia Clube», onde se bebia, se dançava e convivia até madrugada.
Do outro lado da rua funcionava já o Olympia. E o respectivo empresário, Leopoldo O'Donnell, com os seus sócios Júlio Viana e Carlos Sodré, decidiram arrendar o Condes e transformá-lo em cinema. Assim, em 2 de Abril de 1915, abria o ex-teatro agora CINEMA CONDES, com a projecção do filme «CLEÓPATRA», um original italiano.
Mas foi em 1916 que a velha casa ganhou o alento que a transformou num dos mais concorridos e selectos cinemas de Lisboa.
De facto, nesse ano, passou a gerir o Condes um dos primeiros distribuidores de filmes em Portugal, José Martins Castelo Lopes. Os seus descendentes ficaram ligados à casa até ao encerramento em 1996.
A sala sofreu entretanto grandes obras em 1919, que lhe deram um ar mais moderno. Muitos êxitos por lá passaram.
Dê-se relevo ao fenómeno que, em 1947, foi o filme português «CAPAS NEGRAS», com Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro, que permaneceu quase meio ano em cartaz.
Foi-se mantendo até que, à entrada da segunda metade do século XX, decidiram os proprietários fazer um cinema inteiramente novo. Da obra se encarregou o arquitecto Raul Tojal, pertencendo os baixos relevos da fachada ao cinzel do escultor Aristides Vaz.
A inauguração teve lugar em 30 de Outubro de 1951. Os anos 50 foram um tempo de ouro para as grandes salas:conviviam, com público para todos e a meia dúzia de passos uns dos outros, o CONDES, o ODÉON, o PILITEAMA, o EDEN, o TIVOLI, o SÃO JORGE etc..
Ainda sobrava gente para os cinemas populares como o OLYMPIA (que descera de estatuto de sala elegante) ou o RESTAURADORES (o GALO ou o CHANTECLER para os íntimos) e até o COLISEU dava cinema muitas vezes.


HARD ROCK CAFÉ
No espaço do antigo Cinema CONDES, abriu em 12 de Junho de 2003 um dos mais famosos bares, onde se pode fazer uma refeição, beber um copo ou simplesmente visitar a sua famosa «MEMORABILIA» que reúne mais de trinta peças ligadas a antigas pessoas do Rock.
O «HARD ROCK CAFÉ» tem dois pisos e uma capacidade para 220 pessoas sentadas e 450 em pé.
Mantida a traça original do Cinema Condes, o interior foi alvo de uma importante intervenção. No entanto ainda subsiste memória daquilo que foi a função do edifício durante cinco décadas.
Este grupo fundado em 1971 em Londres, iniciou a sua internacionalização em 1982. Actualmente é detido pelo «GRUPO RANK» e está presente em 41 países com mais de 110 restaurantes.
( A título de desabafo, lamenta-se que o antigo cinema CONDES sirva hoje para um «MUSEU» de «ROCK» e não guarde nada da memória dos seus mais de 230 anos de história).


O prédio de esquina da Rua dos Condes virado para os Restauradores, tem data de 1912, é um interessante símbolo de arquitectura urbanística da «Avenida moderna» da autoria do Arquitecto Francisco Vilaça, pertenceu a D. Maria da Glória Leite, e substituiu um outro prédio existente no local até 1911.
(CONTINUA - Próximo - O Cinema Olympia)



segunda-feira, 17 de março de 2008

RUA DOS CONDES [ II ]

Rua dos Condes - (200-) Fotógrafo não identificado
Rua dos Condes - (1949-01) Foto Eduardo Portugal (Teatro da Rua dos Condes-Modificado) in Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Rua dos Condes - (19--) Foto Paulo Guedes (Portal do Ateneu Comercial de Lisboa) in AFML


Rua dos Condes - (1860) Foto Joaquim Pedro (Emília das Neves 1820-1883) in pt.wikipedia.org

(CONTINUAÇÃO)
Quem olhar para a Rua dos Condes, de costas para o Ateneu, antevendo uma Lisboa antes do Terramoto, não será difícil imaginar toda aquela zona pejada de hortas, conseguirá até "ver" esta Rua como simples prolongamento da rampa da Glória, (hoje calçada da Glória), por onde sobe e desce o seu elevador. Isto, antes da abertura do «Passeio Público» que data de (1764-1889), e o sítio era chamado de «VALVERDE» (local das Hortas).
(Falamos hoje do percurso histórico na Rua dos Condes durante o século XIX).
Em 1835, o Teatro Condes serviu para actuação de uma companhia francesa, portadora de algum material revolucionário para a época, nomeadamente na iluminação e composta por mais de trinta actores.
Integrado na digressão vinha um actor francês de nome Emile Doux, que revolucionou de algum modo a cena portuguesa na arte de representar. A companhia esteve durante uma temporada, regressando depois ao seu pais. Ficou por cá Emile Doux e criou naquele espaço do teatro uma espécie de conservatório.
Com ele se aperfeiçoaram na arte de representar alguns nomes que viriam a ser grandes figuras da Ribalta portuguesa - e que hoje conhecemos dos dísticos de algumas ruas de Lisboa: a actriz Delfina, Emília das Neves, Tasso, João Anastácio Rosa etc..
Passaram pelo Condes, ainda algumas das primeiras revistas escritas e musicadas em Portugal. No ano de 1858, subia à cena «Civilização e Progresso», de Costa Braga e Francisco Serra; em 1860, num original de Eduardo Coelho ( o fundador do Diário de Notícias) era representada «A Sombra de 1859».
Seguiram-se as «Revistas do Ano» - ainda em 1859, de Alcântara Chaves, e de 1860, do mesmo autor de parceria com Monteiro de Almeida.
Sousa Bastos (que foi empresário, autor teatral, cronista de memórias e, além de tudo isso, marido da actriz Palmira Bastos, muito mais nova do que ele e cuja longa vida lhe permitiu ainda chegar aos tempos da Televisão em Portugal), tentou dar novo alento à casa dos CONDES: as suas peças e revistas sucediam-se, como foi o caso de «Coisas e Loisas de 1873», «Entre as Broas e as Amêndoas», «Lisboa no Palco», e «Cosmorama de Lisboa».
Mas ao ponto mais alto sucedeu a implacável decadência.
Assim, a 13 de Outubro de 1882, começou o teatro a ser demolido, sendo então considerado já como "Velho pardieiro, feio, incómodo e até perigoso", segundo rezam os apontamentos do empresário e autor Sousa Bastos.
Tratou-se, porém, de uma substituição. No mesmo local, apareceu um Teatro "Challett", de vida efémera (pouco mais de um ano).
Surgiu então o dinamismo de Francisco de Almeida Grandella, comerciante que foi o responsável pelos grandes armazéns que tiveram o seu nome, na Rua do Ouro e na Rua do Carmo.
Sob o risco do arquitecto Dias da Silva, apareceu o novo Teatro da Rua dos Condes inaugurado em 23 de Dezembro de 1888, com a peça «AS DUAS RAINHAS», numa tradução de Sousa Bastos, antecedido por um monólogo de abertura recitado pelo actor Ta borda e escrito por Barbosa Machado.
Em 1898, o edifício voltou a ter obras de manutenção e algum restauro.
(CONTINUA-no século XX)




domingo, 16 de março de 2008

RUA DOS CONDES [ I ]

Rua dos Condes - (2004) Foto Dias dos Reis (ex-Cinema Condes hoje HARD ROCK CAFÉ) in http://www.pbase.com/
Rua dos Condes - (195--) Fotógrafo não identificado (Cinema Condes)

Rua dos Condes - (195--) Foto Salvador Almeida Fernando ( Cinema Condes) in AFML

Rua dos Condes - (Post. 1888) Fotógrafo não identificado (Teatro da Rua dos Condes, após a reconstrução de 1888) in Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa


Rua dos Condes - (C.1902) Foto Paulo Guedes (Antigo Teatro Condes visto da Avenida da Liberdade) in AFML

A RUA DOS CONDES pertence a duas freguesias. À freguesia de SANTA JUSTA todos os números ímpares, à freguesia de SÃO JOSÉ todos os números pares. Começa na Rua das Portas de Santo Antão no número 127 e termina na Praça dos Restauradores no número 46.


( Vamos hoje falar duma rua curta, mas com muita história. Começamos pela identificação do sítio e seguimos o caminho do seu primeiro Teatro, num longo curso de vida).

«AS HERANÇAS»
No século XVI assentava nesta vasta área o Solar e Quinta de Fernão Álvares de Andrade. Do casamento de uma neta de Fernão Álvares com D. Fernando de Menezes, sobrinho neto do 1º Conde de Ericeira - o qual veio a herdar, título e casa -, o Palácio dos Andrades, da Anunciada, passou para os Menezes (ERICEIRAS).


«A POSSÍVEL EXPLICAÇÃO PARA O NOME DA RUA»
Os Condes de «CASTELO MELHOR» antes de 1755, tiveram o seu primeiro Palácio no sítio que hoje vemos limitado pela Rua dos Condes e pela travessa de Santo Antão. A seguir, pela actual Avenida da Liberdade acima até ao Largo da Anunciada, estendia-se outro Palácio, o dos «CONDES DA ERICEIRA». E, onde temos hoje o Ateneu Comercial de Lisboa, na Rua das Portas de Santo Antão, ficava a morada dos «CONDES DE POVOLIDE».
Natural, portanto, que toda aquela zona ficasse conhecida pelo sítio «dos Condes» e que a rua viesse a tomar o mesmo nome.


«O TEATRO QUE VIROU DEPOIS CINEMA»
Os Condes da Ericeira eram donos da maior parte do sítio onde existe hoje a Rua dos Condes até ao Largo da Anunciada.
Já nessa época, se representava por ali: no Pátio das Hortas dos Condes, iam à cena funções de maior êxito na época, veio porém, o terramoto - e nem os Palácios resistiram.
O Solar dos fidalgos ericeirenses foi destruído pelo terramoto de 1755. Logo no ano seguinte, pensou-se edificar numa parte do terreno um teatro.
O Arquitecto italiano Petronio Manzoni encarregou-se do projecto, foi ali surgindo o chamado Teatro da Rua dos Condes, que começou a funcionar em 1765. As gravuras da época mostram-nos um edifício relativamente baixo, pelo que custa a entender como lá cabiam várias ordens de camarotes.
Era uma casa de grandes ambições: lá se cantou ópera durante dezenas de anos.
Um episódio ficou nos anais da pequena história dos escândalos lisboetas - a célebre cantora italiana ZAMPERINI, que aliando uma bela voz à sua bonita figura, era também muito comunicativa e amiga de convívios: alguns elegantes da época perderam-se de amores pela «diva da Rua dos Condes».
O Marquês de Pombal ia fechando os olhos, até saber que um dos mais entusiasmados seguidores daquele "rouxinol Transalpino" era o seu próprio filho, que ia delapidando a fortuna da família. Claro está que a esta cantora que tantos escândalos amorosos provocara, o Marquês de Pombal, viu-se obrigado a expulsá-la do país.
Em 1782, era tal a importância do Teatro dos Condes, que passou a ter categoria de Teatro Nacional. A Administração era comum ao Teatro de São Carlos. A vida literária e teatral portuguesa passava forçosamente por ali.

sábado, 15 de março de 2008

RUA DA MADALENA [ II ]

Rua da Madalena - (2005) Foto de APS (Igreja da Madalena)
Rua da Madalena - (2005) Foto APS (Largo da Madalena)

Rua da Madalena - (2003-4) Fotografo não identificado (Reabilitação da Rua da Madalena) in http://www.ferrindal.pt/


Rua da Madalena - (Anos 50 do século XX) Foto Horácio Novais (Edifício do Almada-Largo da Madalena) in AFML

Rua da Madalena, 33 a 39 - (Entre 1898 e 1908) Fotógrafo não identificado in Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Rua da Madalena, 189 a 197 - ( s.d.) Foto Arnaldo Madureira (Escola Primária Feminina Nº 75) in AFML

(CONTINUAÇÃO)
A Igreja actual, obra do arquitecto João Paulo, foi construída depois do grande terramoto de 1755, entre 1767 e 1783. Já no século XX, mais precisamente na madrugada do dia 10 de Abril de 1907, um pavoroso incêndio destruiu totalmente a Igreja, que voltaria de novo a ser reconstruída, tal como a encontramos nos nossos dias.
Tem esta Igreja uma imagem de particular veneração, a imagem de São João dos Perdões, que apresenta a singularidade de ter o braço descolado da cruz.
Segundo reza a lenda, passava à frente da Igreja um preso proveniente do Limoeiro que se dirigia ao patíbulo para ser castigado por um crime que teimava em afirmar que não cometera. Na ânsia de provar a sua inocência fugiu aos guardas que o acompanhavam e, entrando na Igreja ajoelhou pedindo à imagem que desse um sinal da sua inocência. Quando os guardas o iam levar de novo, o braço da imagem desprendeu-se da cruz, dando assim a prova da inocência que o preso pedira, sendo este finalmente ilibado do crime.


A Rua da Madalena, tal como no século XIX em pouco se deve diferenciar do que é hoje, se exceptuarmos o intenso comércio e o trânsito. O chão, possivelmente de terra, foi em 1841 mandado lajear por ordem da Câmara de Lisboa.
Os edifícios Pombalinos de 3 andares, com lojas e águas-furtadas, tendo ainda no andar nobre «1º», uma fiada de varandas altas com os respectivos "varandins" de ferro-forjado verde.

«Esta zona bem servida de águas, a sua ocupação é antiquíssima, encontrando-se vestígios da civilização árabe e romana»(1).

Não devemos estranhar o facto de o Largo do Caldas ter mudado de nome, pois, no grande edifício do Caldas, está hoje instalado a sede do CDS e, Amaro da Costa, ter sido um destacável militante desse partido político.


Um prédio alto no Largo da Madalena, entre a Rua da Madalena e a Travessa do Almada, construído no ano de 1749 por João Manuel de Almada e Melo, Visconde de Vila Nova de Sotto de El-Rei, tinha um aspecto significamente diferente do actual. Do nome do seu proprietário «ALMADA» resultou a travessa com seu nome e o próprio prédio.
No Século XIX funcionou durante algum tempo o Senado da Câmara de Lisboa.


Uma informação emitida pela Câmara Municipal de Lisboa dava a seguinte notícia: No próximo dia 4 de Julho de 2003, esta Câmara vai encerrar ao trânsito, o troço de Rua da Madalena entre a Rua da Alfandega e o Largo Dr. Adelino Amaro da Costa, com o objectivo de reabilitar o património edificado desta zona histórica da cidade.
(1) - RevelarLX (NET)