sábado, 5 de julho de 2014

RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ IV ]

RUA JOÃO VILLARET
 Rua João Villaret - (2014) (A RUA JOÃO VILLARET com entrada pela AVENIDA DE ROMA, na freguesia do AREEIRO)  in  GOOGLE EARTH

Rua João Villaret - (2014) (A RUA JOÃO VILLARET paralela com a linha de Cintura dos Caminhos de Ferro, na zona do AREEIRO) in GOOGLE EARTH
Rua João Villaret - (2014) - (um troço da RUA JOÃO VILLARET no sentido Nascente-Poente e no seu lado direito a separação do caminho de ferro, linha de cintura de Lisboa) in GOOGLE EARTH
Rua João Villaret - (Finais dos anos 40 do século XX) (JOÃO HENRIQUE PEREIRA VILLARET foi um grande mestre da recitação poética, tendo trabalhado como actor no teatro D. MARIA I, na revista e no cinema português. Tem uma rua em LISBOA na freguesia do AREEIRO)  in  AVEIRO CULTURAL
Rua João Villaret - (1950) (Paulo Borges) (JOÃO VILLARET no filme FREI LUÍS DE SOUSA" interpretando o papel de TELMO PAIS ao lado da jovem MARIA DULCE) in OS ANOS DE OURO DO CINEMA
Rua João Villaret - (1959) (Um momento de JOÃO VILLARET no seu programa aos Domingos à noite na RTP, recitando alguns dos mais famosos poetas nacionais) in RTP

(CONTINUAÇÃO)-RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ IV ]

«JOÃO VILLARET»


A «RUA JOÃO VILLARET» pertencia à freguesia de S.JOÃO DE DEUS, que pela REFORMA ADMINISTRATIVA DE LISBOA DE 20013, juntamente com a freguesia do ALTO DO PINA passou a designar-se por freguesia do «AREEIRO». Começa na AVENIDA DE ROMA junto ao número 31-D, não tendo ainda uma finalização definida. São convergentes a esta rua, do seu lado esquerdo a RUA ACTOR VIANA, RUA AUGUSTO GIL e RUA DAVID SOUSA.
Pelo Edital de 4 de Março de 1961 a CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA escolheu uma RUA na freguesia de SÃO JOÃO DE DEUS (hoje AREEIRO) para acolher a figura do genial actor e declamador. À RUA JOÃO VILLARET (actor-1913-1961) foi-lhe atribuído a artéria conhecida como rua projectada à AVENIDA SACADURA CABRAL, RUA ACTOR VIANA e ainda como rua projectada à RUA DAVID DE SOUSA. Igualmente a COMISSÃO CONSULTIVA MUNICIPAL DE TOPONÍMIA na sua Acta Nº 78 de 1 de Maio de 1961, emitiu parecer favorável para que a RUA JOÃO VILLARET figurasse na rua projectada à AVENIDA SACADURA CABRAL.
JOÃO HENRIQUE VILLARET, nasceu em LISBOA a 10 de Maio de 1913 e faleceu também em LISBOA no dia 21 de Janeiro de 1961. Evidencia-se como actor de teatro de cinema, declamador, encenador e ainda chegou  a ter um programa na TELEVISÃO. Deu nas vistas pela sua maneira muito pessoal e inédita como recitava poesia. Estudou no LICEU PASSOS MANUEL e começou logo a fazer teatro amador, o que levou de seguida a frequentar o CONSERVATÓRIO NACIONAL, concluindo em 1931 sem uma classificação muito alta. Nesse ano, junta-se à COMPANHIA DE TEATRO REY COLAÇO-ROBLES MONTEIRO e mais tarde à COMPANHIA DE TEATRO OS COMEDIANTES DE LISBOA, dirigida por RIBEIRINHO e seu irmão ANTÓNIO LOPES RIBEIRO, fundada em 1944.
Estreou-se em OUTUBRO no D. MARIA II em LEONOR TELES de MARCELINO MESQUITA. VILLARET terá feito muitas revistas no NACIONAL, prática comum em todos os actores da altura. Teve grande sucesso e cedo se destacou pela forma como dizia poesia.
No ano de 1942 JOÃO VILLARET representou no TEATRO AVENIDA a revista BELEZAS DE HORTALIÇA de Fernando Santos, Almeida Amaral e L. Rodrigues com música de Jaime Mendes e José Nobre. Um quadro de comédia em verso, um poema patriótico de ANTÓNIO BOTO e uma rábula cómica, marcavam a sua presença, notada sobretudo neste último número, que se adaptava à circunstância política portuguesa da época, com a célebre cançoneta de MAURICE YVAIN, "C'est mon homme". Referia-se a SALAZAR nas entrelinhas quando cantava, com uma piscadela maliciosa de olho. "Aquele a quem dou tudo, tudo a sorrir, - cést mon homme, - e a quem dou la chemise se ele um dia ma pedir, (...)". No ano seguinte no palco do D. MARIA II representou ELECTRA e "OS FANTASMAS" de O´Neil, um dos papeis que mais marcas lhe deixou.
A partir de 1946 passa a trabalhar nos COMEDIANTES DE LISBOA, desempenhando o papel principal de MISS BA;  O REI; CADÁVER VIVO; PIGMALEÃO e BÂTON.
Em 1947 na Revista TÁ BEM OU NÃO TÁ de Ascenção Barbosa, Aníbal Nazaré e Nelson de Barros no TEATRO AVENIDA, com música de FERNANDO DE CARVALHO e FREDERICO VALÉRIO.
Escreveu um dia PAVÃO DOS SANTOS..."Ao som das guitarras, num ritmo crescente, entrecortado de pausas dolentes, VILLARET conta uma história de vida e põe o público ao rubro no "FADO FALADO" - de quem HERMINIA SILVA faria a contrapartida cómica um ano depois, no seu "FADO MAL FALADO" na revista "AÍ, BATE, BATE" de Fernando Santos, Almeida Amaral e Fernando Ávila".
JOÃO VILLARET durante vinte anos esbanjou versatilidade e talento não só em palcos como nos estúdios. No cinema teve a sua primeira participação em 1936 interpretando D. JOÃO VI no filme O BOCAGE de Leitão de Barros, segue-se O PAI TIRANO(1941) onde interpreta o papel de um pedinte mudo, INÊS DE CASTRO (1945), CAMÕES (1946), FREI LUÍS DE SOUSA (1950) na interpretação de (TELMO PAIS), A GARÇA E A SERPENTE (1952) e O PRIMO BASÍLIO (1959). 
Na RTP  JOÃO VILLARET teve um programa aos Domingos onde declamava poesia NACIONAL, e isto ajudou a dar a conhecer os nossos grandes poetas. Na memória dos portugueses fica ainda muito do seu estilo inconfundível na A PROCISSÃO de ANTÓNIO LOPES RIBEIRO e O MENINO DE SUA MÃE entre outros. Aos 48 anos JOÃO VILLARET deixa-nos, ficando para sempre a lembrança do seu estilo inconfundível de dizer poesia.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ V ]RUA FRANCISCO RIBEIRO (RIBEIRINHO)»

quarta-feira, 2 de julho de 2014

RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ III ]

RUA ACTRIZ VIRGÍNIA
 Rua Actriz Virgínia - (2014) (A "RUA ACTRIZ VIRGÍNIA" no  "BAIRRO DOS ACTORES" com entrada pela "AVENIDA ALMIRANTE REIS" junto do número 254) in  GOOGLE EARTH
 Rua Actriz Virgínia - (2007) (Panorama do BAIRRO DOS ACTORES  onde se insere a "RUA ACTRIZ VIRGÍNIA")  in  GOOGLE EARTH
 Rua Actriz Virgínia - (2014) (Um troço da RUA ACTRIZ VIRGÍNIA no sentido para Nascente) in GOOGLE EARTH
 Rua Actriz Virgínia - (2014) (A RUA ACTRIZ VIRGÍNIA no seu final junto da RUA ABADE FARIA) in GOOGLE EARTH
 Rua Actriz Virgínia (depois de 1916) (O "TEATRO APOLO" antigo PRÍNCIPE REAL onde se estreou em 15 de Abril de 1866, aos 16 anos a ACTRIZ VIRGÍNIA, situado no MARTIM MONIZ) in FACEBOOK
 Rua Actriz Virgínia - (Retrato  "possivelmente" de 1880, com 30 anos de idade) (A  ACTRIZ VIRGÍNIA na época em que representava no TEATRO D. MARIA II)  in   FACEBOOK
 Rua Actriz Virgínia - (1916) (Retrato da ACTRIZ VIRGÍNIA ou VIRGÍNIA DIAS DA SILVA, publicada no 1º Vol. do Álbum Teatral - Ilustração Quinzenal - Biografias em Prosa e Verso por Avelino de Sousa - Editores Pedroso & Santos - 1916- Imprensa Libanio da Silva - LISBOA) in BIBLIOTECA DIGITAL da FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
Rua Actriz Virgínia - (Publicada em 1925 uma colecção da autoria de AMARELHE sob a direcção de Mário Duarte) (Caricatura feita por AMARELHE da ACRIZ VIRGÍNIA, que tem uma rua com seu nome, no BAIRRO DOS ACTORES) in ARQUIVO DIGITAL-CARICATURAS

(CONTINUAÇÃO)-RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ III ]

«RUA ACTRIZ VIRGÍNIA»


A «RUA ACTRIZ VIRGÍNIA» pertencia à freguesia do ALTO DO PINA que, com a REFORMA ADMINISTRATIVA DE LISBOA 2013, ficou a pertencer à freguesia do «AREEIRO».
Começa na RUA ABADE FARIA, 54 e termina na AVENIDA ALMIRANTE REIS, 254.
Um EDITAL de 31 de Março de  1932 deu nome a esta RUA, que está integrada no primeiro BAIRRO DOS ACTORES, junto da ALAMEDA D. AFONSO HENRIQUES.

A ACTRIZ VIRGÍNIA, de seu nome completo VIRGÍNIA DIAS DA SILVA, nasceu em 19 de Março de 1850 em TORRES NOVAS e faleceu em 19 de Dezembro de 1922 em LISBOA.
Filha mais nova de um casal que vivia muito humildemente, motivo para que VIRGÍNIA acabasse por ser criada por uma tia, que lhe antevia a profissão de costureira. No entanto, seu futuro passava por seu padrinho RAFAEL RODRIGUES DE OLIVEIRA, accionista do velho TEATRO DA RUA DOS CONDES.
Ainda criança, acompanhara o seu padrinho a todas as récitas e ensaios gerais, despertando assim a sua paixão pelo teatro (quando chegava a casa, punha-se a representar tudo quanto observava, cantando, dançando, repetindo frases e cenas inteiras).
Ainda impulsionada pelo seu padrinho, estreou-se num pequeno papel da comédia em 2 actos "MOCIDADE E HONRA", em 15 de Abril de 1866, no   TEATRO DO PRÍNCIPE REAL ( 1 ), revelando imediatamente o que dela havia a esperar. A sua voz era extraordinária. Inicia aí uma carreira fulgurante com particular destaque para os papeis de ingénua.
Ingressa no TEATRO D. MARIA II, acompanhando o actor e empresário JOSÉ CARLOS DOS SANTOS ( o SANTOS PITORRA), representando a maior parte do reportório deste TEATRO, salientando-se em PRINCESA DE BAGDAD, DIONÍSIA, FÉDORA, OTHELLO, e A ESTRANGEIRA.
Foi primeira dama no TEATRO D. MARIA II durante 27 anos, de onde sai para o TEATRO DA TRINDADE, de que chegou a ser secretária. Devemos referir que, aos 23 anos, já era considerada a primeira actriz portuguesa.
Uma das características mais extraordinárias de VIRGÍNIA era a sua voz, particularmente bem timbrada e com acentos que lhe conferiam uma sonoridade cristalina (este pormenor é várias vezes mencionado em crónicas da época).
Foi duas vezes ao BRASIL, em 1886 e 1887 onde obteve êxitos estrondosos. Regressa a PORTUGAL, ingressa novamente no elenco do D. MARIA II, destacando-se em peças como: A DOR SUPREMA; OS VELHOS; PERALTAS E SÉCIAS; FREI LUÍS DE SOUSA;  LEONOR TELES e AO TELEFONE.
VIRGÍNIA casou com o actor ALFREDO FERREIRA DA SILVA em 1892, de quem vaio a divorciar-se em 1919. Deste casamento resultou uma única filha.
Em 1902 é-lhe atribuído o hábito da ORDEM DE SANTIAGO, sendo a primeira actriz portuguesa a receber esta distinção. No ano de 1920, é o PRESIDENTE DA REPÚBLICA PORTUGUESA a atribuir-lhe a ORDEM DE SANTIAGO DE ESPADA. 
Em 1906 é obrigada a retirar-se dos palcos devido a doença. Contudo, já quase no final da sua carreira, participou no filme mudo O CONDENADO ao lado do pintor JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS.
Mas talvez mais importante que as qualidades profissionais foram as suas virtudes humanas. VIRGÍNIA era extremamente humilde, era uma acérrima defensora da classe de actores, indiferente a vaidade ou invejas, muitíssimo disciplinar e leal para com os colegas.
Esteve sempre associada a obras sociais, espectáculos para fins de caridade ajudando incondicionalmente quem precisava  (por ex., refira-se que foi ela quem apoiou a actriz EMÍLIA CÂNDIDA, de geração acima da sua, que se encontrava cega e na miséria).
Esta dedicação aos outros, associada a uma reforma extremamente baixa que auferia, levou a que também ela acabasse por cair em situação económica débil.
Todos estes méritos de VIRGÍNIA levaram a que, em Abril de 1922, lhe organizassem uma festa de homenagem com o propósito de a auxiliar. Ironicamente viria a falecer poucos meses depois. O reconhecimento foi tal que a sua evocação fez referência à sua grande alma de artista mas, acima disso, à sua excepcional alma de mulher.

( 1 ) - TEATRO DO PRÍNCIPE REAL - Que em 1910 a REPÚBLICA obrigaria a que tomasse a designação de TEATRO APOLO, situado na RUA DA PALMA, foi construído por FRANCISCO VIANA RUAS em 1864, e demolido no ano de 1956.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [IV]RUA JOÃO VILLARET»

sábado, 28 de junho de 2014

RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ II ]

RUA ACTOR JOÃO ROSA
 Rua Actor João Rosa - (2014) (A "RUA ACTOR JOÃO ROSA" inicia na Rua Egas Moniz" no número oito, do primeiro BAIRRO DOS ACTORES) in GOOGLE EARTH
 Rua Actor João Rosa - (2007) (Panorâmica do BAIRRO DOS ACTORES onde se insere a RUA ACTOR JOÃO ROSA) in GOOGLE EARTH
 Rua Actor João Rosa - (2014) (Um troço da RUA ACTOR JOÃO ROSA no sentido Sul para Norte) in GOOGLE EARTH
 Rua Actor João Rosa - (2014) (A RUA JOÃO ROSA vista da Rua Barão Sabrosa na parte a Norte) in GOOGLE EARTH
 Rua Actor João Rosa - (1885) Desenho a carvão de José Malhôa (O jovem JOÃO ROSA numa das suas representações teatrais) in O INFERNO 
 Rua Actor João Rosa - (depois de 1883) Pintura de Columbano Augusto Bordalo Pinheiro(1857-1929) ("Retrato" do actor JOÃO ROSA pintado por COLUMBANO) in APPH - ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE FOTOGRAFIA
Rua Actor João Rosa - (Gravura de autor não identificado) (Um "retrato" do actor JOÃO ROSA, publicado na revista "O OCIDENTE" em 20.11. 1907) in  CVC-INSTITUTO CAMÕES

(CONTINUAÇÃO) - RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ II ]

«RUA ACTOR JOÃO ROSA»

A RUA ACTOR JOÃO ROSA pertencia à freguesia do ALTO DO PINA que, juntamente com a freguesia de S. JOÃO DE DEUS e de acordo com a REFORMA ADMINISTRATIVA DE LISBOA DE 2013, resultou na freguesia do «AREEIRO». Começa na RUA EGAS MONIZ no número oito e finaliza na RUA BARÃO SABROSA, 309. Integrada no primeiro BAIRRO DOS ACTORES, em Acta Nº 4 de 18.01.1944 da COMISSÃO DE TOPONÍMIA, foi aprovada a sua nomenclatura.
JOÃO ANASTÁCIO ROSA nasceu em LISBOA a 18 de Abril de 1843 tendo falecido também em LISBOA a 16 de Março de 1910.  JOÃO ROSA nasceu numa família que viria a ser destacada como uma das mais notáveis famílias de artistas do teatro português.
JOÃO ROSA tinha um irmão mais novo de nome AUGUSTO ROSA que seguia a mesma vocação do irmão JOÃO.  Pai e filho partilhavam o mesmo nome - JOÃO ANASTÁCIO ROSA - sendo que ao filho foi atribuída a designação de ROSA JÚNIOR. Pouco tempo durou tal epíteto, pois que cedo passou a ser conhecido simplesmente como JOÃO ROSA, recaindo sobre o pai a designação de ROSA PAI.
JOÃO ROSA sofre a desventura de ser matriculado na ACADEMIA DE BELAS ARTES, mesmo tendo desde cedo, demonstrado o desejo de representar. Terá caído seu pai no mesmo equívoco quando seu avô, quis orientar o ROSA PAI, contra a sua vontade para a medicina. Mas o destino desta gente era a arte de representar! Assim, aos 19 anos, JOÃO ROSA, apresenta-se ao público pela primeira vez ao lado do pai, no TEATRO BAQUET no PORTO, em 15.11.1862, na comédia AS JÓIAS DE FAMÍLIA de CÉSAR DE LACERDA.
Do PORTO transferiu-separa LISBOA para representar no TEATRO SÃO CARLOS, D. MARIA II, GINÁSIO, TRINDADE e no TEATRO DO PRÍNCIPE REAL, sempre com grandes êxitos e com um trabalho digno de maior admiração em cada papel.
Depois de breve passagem pelo TEATRO GINÁSIO, em 1892 com seu irmão AUGUSTO ROSA, e o ACTOR EDUARDO BRASÃO fundou a COMPANHIA ROSAS & BRANDÃO, que dirigiu o TEATRO D. MARIA II durante 18 anos. Estes anos de JOÃO ROSA passados no D. MARIA, foi uma das suas épocas mais notáveis, com inúmeras e geniais criações e desempenhos. Filho e discípulo de um Mestre, foi companheiro de grandes da sua época como: EMÍLIA DAS NEVES, MANUELA REY, TASSO, TEODORICO, JOSÉ CARLOS DOS SANTOS (o SANTOS PITORRA) e outros. Em todos os seus actos soube impor-se pelo carácter e merecimento, tanto ao público como  e no meio teatral. Foi professor de Declamação no CONSERVATÓRIO NACIONAL, onde patenteou a sua vasta cultura e os seus profundos conhecimentos de TEATRO, tanto antigo como moderno. Distinguido como actor de primeira classe e condecorado com a comenda da ORDEM DE SANTIAGO DA ESPADA, passou a ser conhecido como MESTRE JOÃO. Pelos seus relevantes serviços prestados ao TEATRO PORTUGUÊS, foi-lhe ainda concedida uma reforma.
JOÃO ROSA é surpreendido por uma terrível doença, que começou a enfraquecê-lo e a deixar marcas como lapsos de memória, problemas de dicção e envelhecimento precoce, foi forçado a afastar-se do palco e consequentemente do seu público que guardou a sua imagem com tal saudade que, num espectáculo realizado em seu beneficio (promovido pela Associação da Classe dos Artistas Dramáticos em 1909), ao vê-lo, repleto de admiração, o público estremeceu e num movimento unânime ergueu-se e fez-lhe a mais carinhosa aclamação. Esta foi a a última recordação que o público pode guardar deste esplêndido ser humano, pois no ano seguinte partia para sempre.
Dizia "O SÉCULO" Nº 10148 de 16.03.1910, página 1 - A morte do Actor JOÃO ROSA, sem dúvida um soa nossos artistas dramáticos mais queridos e admirados do público e que deixa gravado na história do teatro português dos últimos 50 anos, um nome deveras glorioso aureolado pelos mais brilhantes triunfos. 
Assistido por EGAS MONIZ na CASA DE SAÚDE PORTUGAL-BRASIL, mas já deveras debilitado, o actor não resistiu a uma hemorragia cerebral, vindo a falecer na madrugada de 16 de Março, tinha 67 anos de idade.
No seu "CURRICULUM", deixamos aqui um apontamento de algumas peças onde se notabilizou: RICARDO III de Shakespeare, O ALFAGEME DE SANTARÉM de ALMEIDA GARRETT, FEDORA de VICTORIEN SARDOU, O CARDEAL RICHELIEU, LEONOR TELES, O GRANDE INDUSTRIAL, FOGUEIRAS DE SÃO JOÃO e A CEIA DOS CARDEAIS de JÚLIO DANTAS ( 1 ) entre muitas outras...

( 1 ) - A CEIA DOS CARDEAIS , apresentada em 28 de Março de 1902 pela primeira vez no TEATRO D. AMÉLIA (actual S. LUÍS). 


(CONTINUAÇÃO)-(PRÓXIMO)«RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES[ III ] - RUA ACTRIZ VIRGÍNIA»

quarta-feira, 25 de junho de 2014

RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ I ]

 Rua Actor Isidoro - (2014) (A "RUA ACTOR ISIDORO" com início na ALAMEDA D. AFONSO HENRIQUES, no primeiro "BAIRRO DE ACTORES") in  GOOGLE EARTH 
 Rua Actor Isidoro - (2007) (Vista Panorâmica da "RUA ACTOR ISIDORO" que começa no lado da Alameda e termina na "Rua Actriz Virgínia")  in  GOOGLE EARTH
 Rua Actor Isidoro - (2014) (A "RUA ACTOR ISIDORO" no cruzamento com a "Rua Augusto Machado")  in  GOOGLE EARTH
 Rua Actor Isidoro - (2014) (Um troço da RUA ACTOR ISIDORO no sentido Sul para Norte)  in  GOOGLE EARTH
 Rua Actor Isidoro - (2014) (A "RUA ACTOR ISIDORO" vista da Rua Actriz Virgínia na parte Norte do Bairro) in GOOGLE EARTH
 Rua Actor Isidoro - (entre 1950 e 1970) Foto de Amadeu Ferrari ( A Alameda D. Afonso Henriques esquina com a "RUA ACTOR ISIDORO") (Abre em tamanho grande)  in  AFML
Rua Actor Isidoro - (1963-12) Foto de Artur Goulart  (A "RUA ACTOR ISIDORO" nos anos sessenta do século vinte)  in  AFML

RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ I ]

«RUA ACTOR ISIDORO»

Vamos iniciar hoje uma ronda pela cidade de LISBOA que tem vindo a perpetuar o seu topónimo, dando nomes de ACTRIZES e ACTORES às suas RUAS. Existe mesmo um ou dois bairros que são privilegiados com esses nomes. Trata-se do "BAIRRO DOS ACTORES", que engloba as antigas freguesias de: ALTO DO PINA, S. JOÃO DE DEUS, S. JOÃO e S. JORGE DE ARROIOS, hoje denominadas AREEIRO, PENHA DE FRANÇA e ARROIOS.
Um segundo novo Polo de topónimos de ACTORES tem aparecido na freguesia de BENFICA, desde a década de sessenta aos nossos dias, por motivo do enorme desenvolvimento urbanístico que se verificou, embora neste momento com mais abrandamento.
Existem ainda mais ruas espalhadas por toda a LISBOA com nomes de ACTORES, muito embora não tão agrupados actualmente. No entanto não sabemos se num futuro não poderão constituir outro Polo de ACTORES. É o caso da antiga freguesia da AMEIXOEIRA (hoje SANTA CLARA) que já comporta muitos nomes de ACTORES e ACTRIZES, podendo ser eventualmente ser considerado um terceiro Polo de BAIRRO DOS ACTORES.
Nesta nossa abordagem vamos começar pelo 1º BAIRRO DOS ACTORES, este junto da ALAMEDA D. AFONSO HENRIQUES.

A RUA ACTOR ISIDORO pertencia à freguesia do ALTO DO PINA que juntamente com a freguesia de S. JOÃO DE DEUS, e pela REFORMA ADMINISTRATIVA DE LISBOA, passou a pertencer à freguesia do «AREEIRO».  Tem início na ALAMEDA DOM AFONSO HENRIQUES, 60 e finaliza na RUA ACTRIZ VIRGÍNIA, 9. Integrada no primeiro BAIRRO DOS ACTORES, em Acta Nº 4 de 18 de Janeiro de 1944 da COMISSÃO DE TOPONÍMIA, foi aprovada a sua nomenclatura.

ISIDORO SABINO FERREIRA mais conhecido como o ACTOR ISIDORO, nasceu em LISBOA na TRAVESSA DAS PEREIRAS à GRAÇA, em 18 de Novembro de 1828. Tendo falecido também em LISBOA em 23 de Setembro de 1876.
Seu pai era um modesto operário numa oficina de reparação de equipamento para o exército, tendo cegado seis meses antes de seu filho nascer. O Actor ISIDORO teve uma infância muito difícil, sem poder ir à escola, foi na rua que aprendeu a ler e a escrever, com os rapazes da sua infância e cedo, aos 11 anos começou a trabalhar.
Primeiro como chapeleiro e mais tarde tecelão, e nas horas vagas experimentava o teatro como actor amador em grupos que ele próprio organizava.
Conseguiu entrar no TEATRO D. MARIA II, com 12 anos como "COMPARSA" ( 1 ) e por lá ficou durante anos no anonimato.
Terá recebido o seu primeiro salário como actor em 1849, no Teatro de ALMADA.
Assistiu a uma das suas representações o actor TABORDA que ficou fascinado com o talento do jovem ISIDORO. Passado algum tempo já ele se estreava no TEATRO DO SALITRE, na peça "UMA FRAQUEZA", apadrinhado por TABORDA.
Não podemos esquecer que o TEATRO DO SALITRE foi um dos mais carismáticos espaços teatrais do século XIX. Com a experiência adquirida no TEATRO DO SALITRE, ISIDORO passa a ser um caso sério na comédia, sendo por isso muito disputado dos palcos de LISBOA.
Ingressa no elenco do TEATRO GINÁSIO, onde acabaria por se estrear em 1853, com a interpretação do "MANUEL FERREIRO" na peça ANDADOR DAS ALMAS, uma paródia de FRANCISCO PALHA à Ópera "LUCIA DI LAMMERMOOR de DONIZETTI. E, dois anos depois, ISIDORO fez a sua primeira revista. Ao lado de TABORDA e da vedeta francesa EMÍLIA LETROUBLON, destacou-se bastante, tendo representado mais duas peças de grande comicidade. Na sequência desta sua prestação, ISIDORO foi convidado para o TEATRO D. MARIA II, mas o GINÁSIO não o deixou sair, aumentando-lhe o vencimento que o convenceu a ficar. Mas passados seis meses ISIDORO não resiste a um convite do TEATRO DO SALITRE, então rebaptizado de TEATRO VARIEDADES, que pagou por essa razão uma indemnização ao GINÁSIO.  
E foi nesse teatro que o actor fez a REVISTA DE 1858 que teve um êxito brilhante. E finalmente no ano de 1863 ISIDORO entrava para o D. MARIA II, estando assim classificado com um actor de primeira classe, onde representou brilhantemente. Mas foi no TEATRO DA TRINDADE que ISIDORO criava a sua inesquecível personagem: o REI BOBECHE" da ópera bufa O BARBA AZUL de Offenbach.
Antes, porém, regressara ao TEATRO GINÁSIO por três temporadas, onde escreveu a REVISTA DE 1862, experiência que o levaria a outros géneros literários.
Assim, paralelamente à sua actividade de actor, ISIDORO escreve crónicas e artigos de opinião para diversos jornais, assinou inúmeras traduções de peças teatrais.
ISIDORO era um homem empreendedor, cheio de força, a par de um enorme talento reconhecido pela crítica, pelo público e pelos seus colegas, o que lhe valeria em 1875, as insígnias de "CAVALEIRO DA ANTIGA, NOBILÍSSIMA E ESCLARECIDA ORDEM DE S. TIAGO DE MÉRITO CIENTIFICO, LITERÁRIO E ARTÍSTICO".
O ACTOR ISIDORO deixou-nos aos quarenta e oito anos, certo de que fez tudo para merecer o que a vida lhe proporcionou: a glória e a fortuna!

( 1 ) - COMPARSA - (do ital., comparsa ) Pessoa que, entrando numa peça teatral, pouco ou nada tem que dizer.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES [ II ]-ACTOR JOÃO ROSA»

sábado, 21 de junho de 2014

LARGO DO CARMO [ XVI ]

 Largo do Carmo - (2009) Foto de Bert Kaufmann (Ruínas da nave da IGREJA DO CONVENTO DO CARMO, hoje MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO) in   PANORAMIO 
 Largo do Carmo - (2008) Foto de João Martinho 63    (Ruínas da nave da IGREJA DO CONVENTO DO CARMO actualmente o MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO)  in  WIKIPÉDIA
 Largo do Carmo - (2008) - Foto de Carlos Luís M. C. da Cruz  (Peças escultóricas em exposição no MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO)   in    WIKIPÉDIA
 Largo do Carmo - (2013)  (Interior das ruínas da antiga Igreja do Convento do Carmo, hoje ali instalado o Museu Arqueológico do Carmo)  in    MATRAQUEANDO
Largo do Carmo - (ant. 1895) Foto de Francesco Rochini  (Portal da entrada principal da antiga Igreja do Convento do Carmo, presentemente o Museu Arqueológico do Carmo) (Abre em tamanho grande) in AFML

(CONTINUAÇÃO) LARGO DO CARMO [ XVI ]

«O MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO»

Neste capitulo (e último desta série), entre o passado e o presente, é especialmente dedicado à IGREJA DO CONVENTO DO CARMO, ou melhor dizendo, ao que dela resta, sobretudo da IGREJA que foi tentada reerguer no século XVIII, e que hoje constitui o núcleo do MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO.
O MUSEU está ali instalado desde 1864 nas ruínas da IGREJA DO CONVENTO, o que restou do terramoto de 1755, embora tenha existido uma intenção de obras mais tarde, mas com pouco sucesso.
Do edifício podemos destacar o corpo principal da IGREJA e o Coro, cujo telhado resistiu ao terramoto.
Fundado pelo primeiro presidente da ASSOCIAÇÃO DOS ARQUEÓLOGOS PORTUGUESES, JOAQUIM POSSIDÓNIO NARCISO DA SILVA (1806-1896), será considerado o mentor do MUSEU. Ele tem como objectivo salvaguardar o maior número do património NACIONAL que até à altura, se encontrava abandonado ou em delapidação, motivado pela extinção das ORDENS RELIGIOSAS e ainda de alguns estragos sofridos durante as INVASÕES FRANCESAS e as GUERRAS LIBERAIS.
 Assim, POSSIDÓNIO DA SILVA consegue reunir inúmeras peças de Arquitectura e de Escultura. bem como monumentos funerários de grande relevo artístico e histórico.
Era sua intenção que funcionasse como um "MUSEU VIVO", onde os visitantes pudessem apreciar e ao mesmo tempo conhecer as técnicas arquitectónicas e artísticas de então. O MUSEU desde cedo pôde contar com uma biblioteca, que ainda hoje se conserva, numa das salas do MUSEU.
No seu interior se pode hoje ver uma pequena mas interessante colecção do paleolítico e neolítico português, destacando-se as peças vindas das escavações e de uma fortificação pré-histórica perto da AZAMBUJA.
Um núcleo túmulos góticos inclui o de D. FERNANDO SANCHES(início do século XIV), decorado com cenas de caça ao javali, um outro magnifico túmulo transferido de um CONVENTO DE SANTARÉM para este museu do rei D. FERNANDO (1367-1383) (o rei que mandou levantar uma cerca em volta de LISBOA do século XIV, à qual se dá o nome de MURALHA FERNANDINA) obra-prima da escultura gótica no país, recentemente restaurado. Existe também umas peças romanas, outras visigóticas.
O CONDE DE SÃO JANUÁRIO em finais do século dezanove era na altura o presidente da ASSOCIAÇÃO tendo oferecido ao MUSEU parte da sua colecção particular de cerâmicas pré-colombianas, e duas múmias do mesmo período. Essa colecção exótica constitui hoje um dos principais atractivos do MUSEU.
No último quartel do século XIX e o terceiro quartel do século XX deram entrada no MUSEU valiosas colecções de Arqueologia Pré e Proto-Histórica, proveniente de diversas escavações arqueológicas.
Existem ainda no espólio do Museu: O SARCÓFAGO DAS MUSAS(romano, séc. III-IV d.C.; quatro placas de alabastro com cenas da Paixão de Cristo esculpidas em baixo-relevo, oriundo das oficinas de NOTTINGHAM (meados do século XV); o túmulo da rainha MARIA ANA DE ÁUSTRIA, em estilo barroco; Colecção de 101 pedras de armas, com destaque para a lápide com BRASÃO DE FERNÃO ÁLVARES DE ANDRADE (século XVI), realizada a partir do desenho de FRANCISCO DE HOLANDA.
Durante o período de 1995 e 1996, por motivo das obras do METRO linha CHIADO, com a abertura de dois túneis na COLINA DA PEDREIRA provocando assinaláveis danos nas ruínas da IGREJA DO CARMO. O MUSEU esteve encerrado durante sete anos, motivado pelo procedimento de conservação das estruturas, reabrindo em Julho de 2001. [ FINAL ]

BIBLIOGRAFIA
- ARMORIAL LUSITANO - Coord. de A.E.M. Zuquete-Editorial Enciclopédia, Lda. 1961-LISBOA. 
- AZEVEDO, João de - LISBOA 125 anos sobre carris - Roma Editora-1998 - LISBOA
- CAEIRO, Baltazar Matos - OS CONVENTOS DE LISBOA - Distri. Editora-1989 - SACAVÉM.
- COSTA, Mário - O CHIADO Pitoresco e Elegante-Assoc. dos Arqueólogos Portugueses Ed 2ª - 1987 - LISBOA.
- DIAS, Marina Tavares . LISBOA DESAPARECIDA - Vol. 5 - Quimera- 1996 - LISBOA.
- FESTAS DE LISBOA 1955 - Direcção de Monteiro de Macedo e outros-Publicado pela NEUGRAVURA - 1955 - LISBOA.
- LISBOA E O AQUEDUTO - Edição da C. M. L. 1997 - LISBOA.
- MACEDO, Luís Pastor de - LISBOA DE LÉS A LÉS- Pub. da CML - Vol. III 3ª Ed.1985-Lx.
- MESQUITA, Alfredo-LISBOA- Ed. Perspectivas &Realidades - 1987-LISBOA
- MOITA, Irisalva - O Livro de Lisboa - Liv. Horizonte - 1994 - LISBOA.
- NOBREZAS DE PORTUGAL E BRASIL - Coord. de A.  E. M. Zuquete - Editorial Enciclopédia,Lda - Vol. III - 1961-1984 - LISBOA.
- OLIVEIRA, Cristóvão Rodrigues - LISBOA EM 1551 SUMARIO - Liv. Horz.-1987-LISBOA.
- PINTO, Luís Leite - História do Abastecimento de água a Lisboa - Imp. Nac. Casa da Moeda - 1972 - LISBOA.
- SEQUEIRA, Gustavo de Matos - O CARMO e a TRINDADE - Publicações Culturais da C.M.L. Vol. I, II e III - 1939 - LISBOA.
- SILVA, A. Vieira - A Cerca Fernandina de Lisboa - Publicações da CML - Vol. I - 2ª Ed. 1987 - LISBOA.
- SOUZA, Alberto - ALFACINHAS os lisboetas do passado e do presente (1964?) - LISBOA.
- VIDAL, Angelina - LISBOA ANTIGA E LISBOA MODERNA Ed. VEGA - 1994 - LISBOA.

INTERNET
- NCREP
- REVELAR LX
- SIPA 

(PRÓXIMO)«RUAS DE LISBOA COM NOMES DE ACTRIZES E ACTORES[ I ]RUA ACTOR ISIDORO»

quarta-feira, 18 de junho de 2014

LARGO DO CARMO [ XV ]

 Largo do Carmo - (1554) - (Imagem em Xilogravura da "Crónica do Condestável" D. Nuno Álvares Pereira)  in  SECRETARIADO NACIONAL DA PASTORAL DA CULTURA
 Largo do Carmo - (Século XV) - (NUNO ÁLVARES PEREIRA 1423-1431, Donato Carmelita. Encontra-se exposto no Palácio do Marquês de Pombal em OEIRAS)  in  ALFACINHAS-OS LISBOETAS DO PASSADO E DO PRESENTE
 Largo do Carmo - (2006) Foto de Georges Jansoone (A estátua equestre de D. NUNO ÁLVARES PEREIRA na frente do MOSTEIRO DA BATALHA, uma obra do escultor LEOPOLDO DE ALMEIDA) in  WIKIPÉDIA
 Largo do Carmo - (2009) (A IGREJA DO SANTO CONDESTÁVEL inaugurada a 14 de Agosto de 1951 no Bairro do CAMPO DE OURIQUE em LISBOA, uma obra do arquitecto VASCO REGALE IRA)  in  WIKIPÉDIA
Largo do Carmo - (26.04.2010) (Foto do 1º Aniversário da Canonização de NUNO DE SANTA MARIA anterior D. NUNO ÁLVARES PEREIRA. Em segundo plano podemos observar a IGREJA DO CARMO)  in   REAL FAMÍLIA PORTUGUESA

(CONTINUAÇÃO) - LARGO DO CARMO [ XV ]

«NUNO ÁLVARES PEREIRA»

Já falámos do vetusto CONVENTO DO CARMO e passamos com natural normalidade, ao respectivo fundador, o CONDESTÁVEL DO REINO, D. NUNO ÁLVARES PEREIRA, a cuja persistência e fortuna se deve a construção deste CONVENTO no local do CARMO.
Começarei por recordá-lo que embora natural de CERNACHE DE BONJARDIM, NUNO ÁLVARES PEREIRA nasceu a 24 de Junho de 1360 e faleceu em LISBOA no dia 1 de Abril de 1431. Era filho ilegítimo de Frei ÁLVARO GONÇALVES PEREIRA, CAVALEIRO DOS HOSPITALÁRIOS DE S. JOÃO DE JERUSALÉM e PRIOR DO CRATO, e de D. IRINA GONÇALVES DO CARVALHAL. Passou algum tempo após o seu nascimento  o menino foi legitimado por Decreto Real, podendo assim receber a educação cavalheiresca típica dos filhos dos Nobres do seu tempo. 
Feito mais tarde CONDE DE OURÉM e senhor de terras em todo o PORTUGAL (era donatário de trinta e três VILAS), NUNO ÁLVARES PEREIRA cedo conheceu LISBOA, aqui se deslocando com frequência e cá acabando por professar e morrer.
Logo aos 13 anos, NUNO foi apresentado na Corte, onde conheceu a Rainha D. LEONOR TELES esposa do Rei D. FERNANDO, que desejou tomá-lo para seu escudeiro.
Em plena juventude, viveu NUNO um célebre episódio que já demonstrava a sua propensão para as armas e para a valentia: durante um cerco das tropas castelhanas a LISBOA, divertiam-se os soldados estrangeiros a atravessar a Ribeira de ALCÂNTARA, e vir por quintais e hortas adentro até SANTOS, pilhando e estragando. Tal comportamento suscitou os ardores bélicos e patrióticos do moço guerreiro, que arremeteu sozinho contra a tropa castelhana até que os amigos, envergonhados, lhe deram ajuda, acabando por correr com os intrusos. Depois, com o MESTRE DE AVIS feito D. JOÃO I, obviamente muitas foram as vezes em que o CONDESTÁVEL DO REINO tinha de vir palestrar com o monarca.

A ligação maior de NUNO ÁLVARES com LISBOA deu-se, porém, a partir de 1389. Prometera ele em ALJUBARROTA um grandioso templo à Virgem. Quatro anos depois da batalha, começou a cumprir o voto, comprando  aos Frades da TRINDADE uma parte das suas terras, que em termos actuais situaríamos da RUA DA CONDESSA para baixo. 
Sendo escasso o terreno para o que pretendia, comprou mais aos PESSANHAS, descendentes do Almirante que ainda hoje dá nome a uma das ruas do CARMO.
Começou a construção do CONVENTO em seguida, naquele alto onde ainda se encontra, dominando o ROSSIO  e a parte baixa da cidade.
Ora, reza a história que por duas vezes se desmoronou a projectada mole de pedra, porque assentava sobre terreno de fraca consistência e os alicerces não se agarravam suficientemente. D. NUNO ÁLVARES terá dito que,  nem que o CONVENTO tivesse de assentar sobre bronze, ficaria ali. Assim aconteceu, mas o guerreiro e futuro monge deve lá ter gasto boa parte dos seus capitais: a construção demorou até 1423 ( 34 anos de obras, portanto), embora já em 1397 lá habitassem FRADES CARMELITAS. Sabemos destes factos dos séculos XIV e XV, não será pois de espantar muito que as mexidas constantes no subsolo daquela elevação tivessem provocado na actualidade complicações nos prédios da RUA, e do LARGO DO CARMO e da vizinha CALÇADA DO SACRAMENTO. Vejam lá, já NUNO ÁLVARES se queixava na época!

Após a sua morte FREI NUNO DE SANTA MARIA passou a ser reputado de SANTO pelo povo, que desde então o começa a chamar "SANTO CONDESTÁVEL".  O Santo Padre, PAPA BENTO XVI, durante o Consistório de 21 de Fevereiro de 2009, determina que o "BEATO NUNO" seja inscrito no dia 26 de Abril de 2009, no álbum dos SANTOS (Canonização), 578 anos depois da sua morte.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«LARGO DO CARMO [ XVI ]O MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO»

sábado, 14 de junho de 2014

LARGO DO CARMO [ XIV ]

 Largo do Carmo - (2010)-Desenho: Atelier Acácio Santos e Túlio Coelho - (Emissão de um selo pelos CTT comemorativo à canonização do BEATO NUNO de SANTA MARIA ou D. NUNO ÁLVARES CABRAL, em 26 de Abril de 2009) in  POVO
 Largo do Carmo - ( 2010 ) - Pintura do Mestre Carlos Alberto Santos (D. NUNO ÁLVARES PEREIRA, pintura do Mestre Carlos Alberto Santos) in  REAL ASSOCIAÇÃO DA BEIRA
 Largo do Carmo - (2010) Carlos Fontes ( D. Nuno Álvares Pereira empunhando a espada, em cima do seu cavalo) in COISAS DA CULTURA
 Largo do Carmo - (2009) ( A Espada do "SANTO CONDESTÁVEL" NUNO ÁLVARES PEREIRA no MUSEU MILITAR DE LISBOA)  in  LUSOPHIA
Largo do Carmo - (2010) Foto de Carlos Gomes ( O CENOTÁFIO de NUNO ÁLVARES PEREIRA e Terceiro Conde de Ourém, está colocado no Corpo Central do Panteão Nacional de Lisboa)   in AUREN

(CONTINUA) LARGO DO CARMO [ XIV ]

«AS RELÍQUIAS DO CONDESTÁVEL»

Os restos mortais de «NUNO ÁLVARES PEREIRA» ou "FREI NUNO DE SANTA MARIA" tiveram um percurso bastante acidentado.


Recolhido ao seu Convento no LARGO DO CARMO, o antigo CONDESTÁVEL DO REINO passou ali a sua vida. Lá faleceu em 1 de Abril de 1431 ( isto à sensivelmente 583 anos), num Domingo de Páscoa. Foi obviamente sepultado na Igreja que ele próprio criara.


Durante mais de 300 anos, as relíquias do guerreiro que se fizera monge foram veneradas no local próprio. Aconteceu depois o terramoto de 1755 que (como ainda hoje é visível, apesar das tentativas de reconstrução levadas a cabo e nunca completadas) deixou a Igreja muito mal tratada.

As preciosas relíquias de NUNO ÁLVARES foram então recolhidas e levadas para a IGREJA DA ORDEM TERCEIRA DE NOSSA SENHORA DO MONTE DO CARMO, instalada num prédio (de que já falámos) no topo do LARGO DO CARMO, entre as Ruas da "CONDESSA" e da OLIVEIRA ao CARMO".
Ali permaneceram até 24 de Março de 1836, data em que foram levadas para o MOSTEIRO de SÃO VICENTE, existindo a intenção de os transportar depois para um dos Mosteiros Nobres: o da BATALHA ou o dos JERÓNIMOS. Nada se resolvendo, acabaram os ossos por ir parar novamente à IGREJA DA ORDEM TERCEIRA - de onde só saíram já em meados do século XX, com destino à nova IGREJA DO SANTO CONDESTÁVEL, em CAMPO DE OURIQUE.
Nesta complexa relação do beato NUNO DE SANTA MARIA (elevado aos altares em Janeiro de 1918) com a cidade de LISBOA, faltava um capítulo no qual fosse prestada a homenagem devida.

Não se tornando viável reerguer a IGREJA DO CONVENTO DO CARMO e existindo a necessidade de se construir novas IGREJAS na CIDADE, para corresponder às necessidades provocadas pela expansão e pelos locais de fixação, decidiram as autoridades eclesiáticas que o novo templo a erguer em CAMPO DE OURIQUE fosse dedicado ao antigo defensor da independência de Portugal, entretanto beatificado.
A IGREJA DO SANTO CONDESTÁVEL foi construída no espaço da antiga "EMPRESA CERÂMICA DE LISBOA" existindo desde o ano de 1883, tendo sido um dos polos de desenvolvimento do BAIRRO de CAMPO DE OURIQUE, especializada no fabrico de telhas "MARSELHA", situava-se exactamente onde podemos ver hoje esta IGREJA do CONDESTÁVEL.
Em 1946, começou a construção da IGREJA em forma de cruz latina, inspirada nos tempos portugueses da fase final do gótico.
O projecto foi do arquitecto VASCO REGALEIRA e foram chamados a prestar colaboração os escultores LEOPOLDO DE ALMEIDA, VELOSO DA COSTA e SOARES BRANCO e os pintores ALMADA NEGREIROS, PORTELA JÚNIOR e JOAQUIM REBOCHO. A inauguração teve lugar em data apropriada: 14 de Agosto de 1951, dia em que se comemorava o aniversário de ALJUBARROTA.
Saíram então as relíquias do SANTO CONDESTÁVEL do seu velho lugar de repouso, na ORDEM TERCEIRA. Foram levadas num armão de artilharia, com escolta de honra, em vistoso cortejo. Uma pequena relíquia ficou na Igrejinha do Carmo e o lugar do primitivo túmulo, no então CONVENTO e hoje MUSEU, ficou devidamente assinalado.
Também, no corpo central do PANTEÃO NACIONAL (em SANTA ENGRÁCIA) encontra-se (além de outros) o CENOTÁFIO ( 1 ) de "D. NUNO ÁLVARES PEREIRA".

Longa e algo acidentada jornada tiveram pois as ossadas de NUNO ÁLVARES, desde a sua morte até 1951. Anos antes, em 1944, ao assinalar-se o aniversário natalício do BEATO, tinha um "Conselho da Ala do Santo Condestável" decidido fazer em LISBOA uma procissão em que figuravam as suas ossadas. Tal cortejo pareceu um tanto insólito a muito boa gente, por não vir a propósito, não ter qualquer antecedente e poder até ser encarada como uma espécie de profanação.
A encabeçar os protestos, esteve o olisipógrafo e jornalista NORBERTO DE ARAÚJO.
Diga-se ainda, que se vaticinou para LISBOA projectar também uma estátua para NUNO ÁLVARES. Discutiu-se se deveria estar em pé ou a cavalo, foi escolhida a última versão, e resolvida a questão, foi para a BATALHA, oferecida "pelo povo de LISBOA".

( 1 ) - CENOTÁFIO - (do Grego Kenotaphion, pelo Latim Coenotaphium). Túmulo ou Monumento sepulcral, erigido à memória de alguém (neste caso a D. Nuno Álvares Pereira), mas que lhe não contém o corpo.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«LARGO DO CARMO [ XV ] - NUNO ÁLVARES PEREIRA»